Ttulo: Casamento Forado.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1987.
Ttulo Original: Forced to Marry.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.

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leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Barbara Cartland A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, 
com 350 milhes de livros vendidos em todo o mundo.

Gytha se aproximou, apreensiva, da carruagem
fechada que a aguardava. Percebeu vagamente um
vulto encapuzado no banco traseiro. De repente,
sentiu um empurro e foi puxada violentamente para
dentro do veculo. Nesse momento soube que estava
sendo raptada! No desespero pensou, ento, em lorde
Locke, o homem a quem amava. Toda vez que o via comparava-o a um 
cavaleiro da Idade Mdia, com sua reluzente armadura. Belo e viril,
parecia ter sado dos contos de fadas ou dos anais da cavalaria andante.
S ele, com sua fora e poder, conseguiria salv-la!
Gytha fixava, hipnotizada, o homem  sua frente, O que havia em seu
olhar? Amor ou medo?

BARBARA CARTLAND
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.

Casamento forado
Ttulo original: Forced to Marry
Copyright (c) Barbara Cartland 1986
Traduo: Carmita Andrade
Copyright para a lngua portuguesa: 1987
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 - 3 andar mH
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Grfica Ltda. e impressa
na Editora Parma Ltda.

NOTA DA AUTORA
Vbora  o nome comum de qualquer serpente venenosa, mas esse termo 
geralmente restrito aos exemplares da famlia Viperdae, encontrados na
Europa, sia e frica. Os dez tipos existentes variam muito em tamanho, e 
oferecem perigo ao homem. Algumas serpentes vivem nas rvores, outras, as 
rastejantes, habitam tocas no solo.
Todas elas podem nadar se necessrio, e certas espcies moram nas margens 
dos rios e lagos. O veneno que produzem fica localizado na base do dente 
canino e  introduzido no ferimento da vtima. A quantidade de veneno e a 
profundidade de penetrao diferem, em geral, de acordo com o tamanho da 
serpente, mas algumas, ainda que pequenas, podem ser extremamente 
venenosas.
Todas as serpentes venenosas da Europa so do tipo Genus Vipera. A mais
conhecida delas  a vbora comum, ou Adder, que por sinal  a nica
serpente venenosa da Gr-Bretanha.

CAPITULO I
1818
- No, vov,  absolutamente impossvel! No posso fazer isso!
- Vai fazer o que eu quiser - sir Robert Sullivan berrou.
- Se pensa que vou permitir que meu dinheiro seja esbanjado por algum 
esperto caador de dotes, est enganada!
- Nem todos os homens que me cortejam so necessariamente caadores de 
dotes! - Gytha protestou.
- Acha que algum se casaria com voc por outro motivo alm desse? - sir 
Robert replicou. - E chega de discusses. Voc  livre para escolher 
entre Vincent e Jonathan, qualquer um dos dois, e quanto mais depressa, 
melhor.
E ele deu o assunto por encerrado. Acenou ao valete, em p atrs de sua 
cadeira de rodas, que o levasse para fora da sala.
Gytha afundou-se no sof.
"Que posso... fazer?", ela se questionou, desesperada. "Que... posso 
fazer? "
Ela no entendia bem por qu mas, nestes ltimos dois meses, o av estava 
deveras preocupado com o uso de sua enorme fortuna.
Os mdicos informaram Gytha, em segredo, que ele no viveria mais que 
dois meses, trs no mximo.
Gytha no comunicou esse prognstico a ningum mais.
Contudo, devido ao pressentimento natural dos velhos, sir Robert tinha 
conscincia de que seus dias estavam contados. Muitas vezes discutira 
sobre quem iria herdar sua fortuna, acumulada na ndia, durante o ltimo 
sculo.
Pessoa alguma sabia com exatido a quanto montava, exceto ele mesmo, seu 
procurador, e o responsvel pela contabilidade.
Os poucos membros restantes da famlia tinham conhecimento apenas de que 
se tratava de enorme soma.
Os dois sobrinhos de sir Robert, Vincent e Jonathan, filhos de seu irmo 
mais jovem, contavam os dias para tomar posse da imensa riqueza. Isso, 
Gytha no ignorava.
Por infelicidade, sir Robert s tivera um filho, Alex, pai de Gytha, que 
morrera na batalha de Waterloo.
E Gytha, por sua vez, era a nica filha de Alex, arrebatado 
prematuramente deste mundo.
Alex fora um homem excepcional, insinuante, que usufrura grandemente dos 
prazeres da vida.
Sua morte foi uma tragdia, no apenas para o regimento como tambm para 
o pai dele, que contava com Alex para a continuao do nome Sullivan e 
das ambies da famlia.
Gytha muitas vezes pensava, contudo, que seu pai nunca  havia sido muito 
interessado em dinheiro.
Era bastante socivel e buscava a felicidade em coisas mais simples que a 
encontrada na luta pela fortuna.
E sua me agia da mesma forma.
Descendente de uma famlia da sociedade rural, ela amava
o campo.
No ambicionava ir a Londres e nem aparecer em bailes ou recepes, que 
continuaram com todo o luxo e ostentao mesmo durante os difceis anos 
de guerra.
Mas, em vez de tomar parte nessa vida mundana, ela mudou-se da pequena 
casa que ocupava para a manso do sogro, assim que o marido partiu com
seu batalho para a Blgica.
A casa de sir Robert era enorme e, alm de ter sido totalmente
restaurada, sofria constantes reformas, novas alas eram acrescidas, o que
a tornava cada vez mais confortvel,  claro, porm no menos fria na
atmosfera.
8
Em vrias ocasies a sra. Sullivan dissera a Gytha, sorrindo:
- Tenho a impresso de que somos como pequenos gros de ervilha 
chocalhando dentro de enorme vagem!
Mas, depois da morte do marido, a casa parecia cada vez mais escura e 
triste.
A sra. Sullivan se parecia com um fantasma se movimentando por aqueles 
vastos sales de teto altssimo, ou subindo e descendo as majestosas 
escadarias de madeira entalhada e frisos dourados.
Aos poucos, ela se desligava do mundo, e sua vida se esvaia 
progressivamente.
No fora s o choque sofrido na poca da morte do marido que provocara 
essa reao.
Mas, o tempo passava e a sra. Sullivan no conseguia aceitar a realidade 
dos fatos, isto , que o marido estava mesmo morto.
E, aps curto espao de tempo, Gytha se encontrou quase s no mundo, 
apenas em companhia do av.
Devido  idade avanada deste ltimo, ele no convidava ningum para 
festas ou recepes em sua casa. Consequentemente, a jovem cresceu sem 
ter o convvio com pessoas de sua idade. Era uma existncia triste para
qualquer menina.
Gytha achava algum consolo nos cavalos que enchiam as espaosas 
estrebarias, e que pareciam nunca suficientemente exercitados.
Ela cavalgava todas as horas do dia em que no estivesse tomando aulas 
com as preceptoras, que se sucediam sem interrupo, pois sir Robert 
encontrava defeitos em todas.
E elas ou se ressentiam da interferncia do velho senhor, ou achavam a 
vida na manso to desagradvel que em geral procuravam outro emprego.
Gytha ento estudava sozinha, e obtinha melhor resultado do que atravs 
das aulas.
Passava horas na enorme biblioteca, repleta de livros valiosos.
O av gostava de ser considerado um homem lido e bem-educado, pois sofria 
por no ter frequentado, quando menino, escolas de prestgio no pas.
Da, um de seus luxos consistia em adquirir livros.
No somente a biblioteca estava cheia deles, como todos os quartos, onde 
mais estantes eram adicionadas de tempos em tempos, construdas pelo 
marceneiro local, a fim de acomodar os novos livros.
Eles constituam, na verdade, o contato mais ntimo entre neta e av.
Na volta de seus passeios a cavalo, Gytha costumava ficar com o av, e 
mais que depressa procurava um assunto a discutir com ele, para que o 
velho se distrasse e no a censurasse por ela no estar fazendo as 
lies como devia.
E esse assunto era sempre sobre um livro novo que ela descobrira na 
biblioteca.
A ateno de sir Robert se concentrava, ento, no tema da discusso, 
fazendo-o se esquecer da repreenso que provavelmente viria.
s vezes, lia em voz alta para o av.
Mas em geral ele preferia que lhe fizesse um resumo do livro.
Os olhos do velho senhor enfraqueciam dia a dia.
Ele era incapaz de ler por longo tempo e, o pouco que fazia, era sempre 
em compndios com letras gradas.
Gytha se transformou, portanto, em contadora de histrias.
Ainda que ela no tomasse conscincia do fato, isso melhorava seu ingls, 
seu conhecimento da literatura e do mundo, como tambm seu estilo para 
escrever.
Era, no obstante, uma vida muito estranha.
Aos dezoito anos, parecia incrvel que uma jovem tivesse levado 
existncia to superprotegida.
A menos que vivesse,  claro, encarcerada num convento.
Foi ento que a bomba estourou.
Sir Robert de repente concluiu que, ao morrer, Gytha ficaria s no mundo.
Como ele tencionava, a neta herdaria a maior parte de sua fortuna, por 
isso os caadores de dotes, como aves de rapina, iriam cair em cima dela.
Gytha no tinha experincia e nem capacidade para lidar com esse tipo de 
gente.
E no havia outra alternativa, o velho decidiu, seno faz-las se casar 
com um dos primos.
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Eram filhos do irmo mais moo de sir Robert, Jason, de quem ele nunca 
gostara.
Na verdade, no falava com o irmo h dez anos quando o mesmo morreu num 
acidente de carruagem.
Os filhos de Jason, porm, eram bastante espertos para perceber onde 
residia o interesse deles.
Vinham sendo, nos ltimos meses, visitas constantes do Sullivan Hall.
Gytha se desagradava profundamente de ambos.
Vincent era um verdadeiro janota das temporadas em Londres, que ele fazia 
questo de frequentar.
Imitava o modo de falar arrastado muito em voga na poca entre pessoas da 
classe alta, e isso o tornava ainda mais insignificante e desprezvel, 
aos olhos de Gytha.
Tinha trinta e cinco anos e parecia ser um homem bastante vivido.
Vincent resolvera mostrar  prima sua importncia na vida social de 
Londres.
E tambm a irresistvel atrao que acreditava possuir, com referncia ao 
"belo sexo. "
O valete a servio dele, alis detestado pelos velhos empregados de 
Sullivan Hall, se vangloriava continuamente dos casos amorosos de seu amo 
com as beldades londrinas.
Os serviais contavam a Gytha tudo o que ele dizia.
Todos a conheciam desde que ela nascera. Por isso falavam com liberdade  
patroa, e se esqueciam de que a menina aos cuidados deles era agora 
adulta.
- Se quer minha opinio, miss - um deles disse a Gytha certa vez -, no  
nada bonito se orgulhar por ter ferido o corao de uma mulher! No posso 
imaginar seu pai, Deus que o tenha em paz, se comportando assim.
-  verdade - Gytha concordou. - Papai jamais faria uma coisa dessas!
Gytha detestava o primo Jonathan ainda mais que o irmo.
Vincent ao menos era afvel, ainda que a desprezasse por ela no conhecer 
nada do mundo onde ele brilhava, e a considerasse tola e pouco atraente.
Mas Jonathan no escondia ser ambicioso.
11
Gytha podia enxerg-lo tentando "sugar" o que pudesse de seu av.
Ele demonstrava sua inteno com tanta clareza e usava de tanta 
subservincia para conseguir seu objetivo junto ao tio, que Gytha achava 
embaraoso at olhar para ele.
Quando os dois foram  manso, logo aps a morte de seu pai, no lhe 
deram a mnima ateno.
Para os primos, ela no passava de uma criana.
E eles deduziram tambm, nessa ocasio, que sir Robert deixaria para ela, 
por ser mulher, apenas uma pequena parte da fortuna.
Talvez o suficiente para um dote razovel.
O resto iria para eles, pois ostentavam o nome da famlia, Sullivan.
Foi s nos ltimos seis meses que comearam a ter alguma suspeita.
E ento, em vez de ignorar Gytha, como anteriormente, Jonathan a adulava.
Vincent lhe fazia alguns elogios, porm pouco sinceros, podia-se ver.
Gytha percebia com desprezo o que ambos tinham em mente.
Enfim, um dia, o av comunicou a ela que pretendia faz-la sua nica 
herdeira.
Gytha encarou-o atnita.
- Mas no pode fazer isso, vov!
- Quem vai me impedir? - o velho resmungou. - Voc precisa de dinheiro 
para viver e o destino que eu der  fortuna que possuo  s de minha 
conta. Embora no tendo simpatia por meus sobrinhos, eles so Sullivan e 
talvez, se houver um pouco de miolo nessa sua cabea, possa melhor-los 
muito, de uma maneira ou de outra, casando-se com um dos dois.
- Mas, vov... no consigo nem pensar em me casar com Vincent... ou com 
Jonathan!
- Vai fazer o que eu mandar! - o av gritou. Depois disso, essa discusso 
se repetia dia aps dia.
A nica coisa boa  que nem Vincent e nem Jonathan sabiam com certeza 
quais eram as intenes de sir Robert. Eles apenas suspeitavam de algo.
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Desconheciam que o velho senhor tinha enfim decidido para quem deixap sua
fortuna.
Agora, a discusso pegou fogo quando o av disse a Gytha que tinha 
mandado chamar os sobrinhos.
E eles deveriam chegar dentro de dois dias.
Gytha sentia-se como que apanhada numa armadilha, sem escapatria.
No conseguindo pensar com clareza naquele ambiente da casa, decidiu, 
depois que o av se retirou para o quarto, espairecer um pouco.
Pegou um casaco pesado e vestiu-o s pressas.
- Vai sair, tniss Gytha? - um lacaio indagou.
- Vou s estrebarias, Harry. Se vov perguntar por mim, diga que no sabe
onde estou. 
Harry, que trabalhava na manso por anos, esboou um sorriso.
- Pode confiar em mim, miss.
Gytha estava perturbada demais para lhe devolver o sorriso, apenas 
esperou com certa impacincia que ele lhe abrisse a porta da frente, e 
saiu para o ar frio da noite.
Contudo, aquela temperatura revigorante lhe deu novo estmulo e nimo 
para lutar.
Atravessou o ptio de cascalhos e dirigiu-se  esquerda, onde havia um 
grande arco que comunicava com os estbulos.
Os animais que ela amava l estavam, em seus confortveis compartimentos.
Comiam nas manjedouras ou se deitavam na palha fresca.
Abbey, o chefe dos cavalarios, fazia questo que essa palha fosse 
trocada todos os dias.
Gytha abriu a cancela da baia de um de seus favoritos, Dragonfly. Ele 
imediatamente esfregou o focinho de encontro  jovem, que o acariciou,
dizendo:
- Oh, Dragonfly, que posso fazer? Ajude-me... porque no h mais ningum 
no mundo a quem possa recorrer. E no vou me casar com um homem que no
amo.
Pensou nesse momento em seus pais, e na felicidade que ambos desfrutaram
juntos.
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Quando o pai morreu, foi como se uma luz apagasse no mundo de sua esposa.
Ento, houve apenas trevas.
- Quero amar algum assim, Dragonfly - Gytha murmurou. Como o cavalo 
movesse as orelhas, ela concluiu que ouvira
e tambm que havia entendido seu desespero.
Nesse instante, escutou passos no corredor fora da baia.
Era Hawkins, que tinha sido o ordenana de seu pai durante a guerra.
Fora morar com a famlia depois de terminado o conflito.
- Ouvi sua voz, miss - ele falou -, e vim para ver se posso ajud-la em 
alguma coisa.
Hawkins conhecia Gytha desde criana, e no ignorava que, quando estava 
aborrecida, procurava consolo na companhia dos cavalos.
Hawkins entrou na baia e viu lgrimas nos olhos de Gytha.
- No chore, miss - ele a confortou. - Esperava pela senhorita para dizer 
que temos uma boa novidade para amanh.
- O qu? - Gytha balbuciou, entre esperanosa e ao mesmo tempo com medo.
Se se tratasse da vinda de Jonathan e Vincent, aguardados para o prximo 
dia, a notcia no seria boa,  claro.
- Soube - Hawkins replicou -, que vai haver uma corrida de obstculos na 
propriedade de nosso vizinho, lorde Locke. Se pudermos escapar de casa 
amanh bem cedo, podemos ver tudo.
Gytha se interessou logo pelo assunto.
- Uma corrida de obstculos, Hawkins? Quer dizer que sua senhoria est de 
volta? Pensei que ainda estivesse viajando.
- J voltou, sim, e a primeira coisa que fez foi organizar uma corrida. 
Os amigos dele vm de Londres com os mais espetaculares cavalos j vistos 
por estes lados.
- Oh, Hawkins! Quem lhe contou isso?
- Ouvi comentrios hoje, miss, quando fui ao mercado.  Um dos lacaios de
Locke Hall estava l comprando cerveja.
Fez uma pausa, e vendo o interesse de Gytha, continuou.
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- Esse empregado descreveu as festas que sua senhoria d em Londres e
tambm aqui, em Locke Hall. Amanh, o local vai ficar cheio de cavaleiros
e os estbulos repletos de animais puros-sangues.
Gytha riu.
- Oh, Hawkins, que maravilha! Claro que ns vamos apreciar essa corrida. 
Mas no fale nada ao resto dos criados, seno aquele malvado do valete do 
vov vai contar tudo e eu no vou poder sair de casa.
- No falo nada, miss, pode confiar em mim. Gytha riu outra vez.
Tinha cincia da grande rivalidade existente entre o valete de seu av, o 
qual o servia h muitos anos, e o resto da criadagem.
Todos pensavam, e havia motivo para isso, que ele era um verdadeiro 
espio.
Repetia ao amo tudo o que se dizia ou se fazia na casa.
- O que vamos fazer, Hawkins,  comunicar a todo mundo que estamos indo 
para um passeio curto a cavalo, como de hbito, e voltaremos na hora do 
almoo. - Ela o fitou e prosseguiu: - Mas, e se tivermos fome? Seria bom 
levarmos alguns sanduches.
- Deixe tudo por minha conta, miss. E aposto que sua senhoria vai vencer 
essa corrida, sem sombra de dvida.
- Espero que sim - Gytha concordou -, e vai ser uma delcia v-lo outra 
vez. Acha que ele mudou muito nestes ltimos dois anos?
- Ficou mais velho,  lgico. Mas o lacaio que estava no mercado contou a 
todos com orgulho como seu amo, no treino, tinha pulado os obstculos sem 
perder um sequer, e na mais perfeita forma.
Gytha deu um suspiro de prazer. Lembrou-se da ltima vez em que vira 
lorde Locke. No havia no mundo cavaleiro mais perfeito. Parecia um s 
corpo com o cavalo.
Embora as duas propriedades, a dele e a de seu av, confinassem, ela 
nunca tinha falado com lorde Locke.
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Nem jamais pusera os ps na manso de seu vizinho.
Isso devido a uma longa disputa por causa de terras. A floresta chamada 
Monk's Wood, localizada no limite das duas propriedades, era o motivo da 
contenda.
O velho Locke, pai do atual, insistia que a floresta era dele, enquanto 
que sr Robert asseverava ser ele o proprietrio.
Os donos se insultavam sem cessar.
Advogados entraram em cena e mapas antigos foram consultados.
Mas no foi possvel encontrar uma resposta satisfatria para
o caso.
Tudo acabou com um rosnando para o outro, como cachorros enraivecidos, e 
recusando a se falarem mesmo quando interesses do condado estavam em 
jogo.
A famlia de lorde Locke morava no local havia vrias geraes, muito 
antes que os Sullivan.
Lorde Locke era o patrono do show de cavalos e de vrias outras 
atividades beneficentes.
Sir Robert era patrono do show da agricultura e patrocinador de outros 
tipos de caridade no lugar.
Os vizinhos preferiam lorde Locke a sir Robert, embora grande nmero 
deles tentasse viver em harmonia com os dois idosos cavalheiros.
Inevitavelmente, contudo, havia ocasies em que tinham de se decidir 
entre um ou outro.
Quando o atual lorde Locke herdou as propriedades da famlia, j tinha se 
distinguido como soldado valoroso.
E, finda a guerra, ele se transformou num dos mais apreciados jovens do 
beau monde.
Notvel como cavaleiro, era tambm excepcional aluno da academia de boxe 
em Bond Street.
Destacava-se ainda como bom esgrimista e, dizia-se, havia vencido dois
campees da Europa.
Era indiscutvel perito no rifle, tratando-se da caa, ou na pistola, no
caso de duelos.
As histrias sobre ele eram repetidas centenas de vezes pelos empregados 
das duas propriedades, da dele mesmo e da de sir Robert.
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Gytha pensava em lorde Locke como um heri.
O triste era que nunca tinha tido oportunidade de falar com ele.
Mas o vira de longe, o suficiente para alimentar sua imaginao a ponto 
de faz-lo parte de seus sonhos.
E, o fato de ele ter escolhido uma viagem de volta ao mundo depois do 
trmino da guerra, coincidiu exatamente com o que Gytha esperou que ele 
fizesse.
Muito melhor do que passar o tempo indo dos braos de uma linda mulher 
para os de outra.
Ouviu dizer que lorde Locke no se pretendia casar to cedo.
Tencionava ficar solteiro por muitos anos.
Isso aumentava a aura que o circundava, no conceito de Gytha.
Tambm nunca poderia pensar em lorde Locke correndo atrs de dinheiro 
como seus primos, ou adulando um velho como seu av s para obter alguma 
coisa em retribuio.
- Nada vai me impedir de olhar a corrida - ela disse a Hawkins. - Vamos  
parte mais elevada de Monk's Wood e de l poderemos ver tudo com 
facilidade.
- Ouvi dizer que sua senhoria modificou a pista recentemente - Hawkins 
observou.
- Em que sentido?
- Ampliando. E fez os obstculos mais altos e mais difceis.
- Gostaria de poder salt-los, eu tambm.
Mas Gytha sabia que, mesmo podendo ver e admirar lorde Locke  distncia, 
seria impossvel para ela se encontrar com o nobre vizinho.
De qualquer maneira, a corrida de obstculos varrera de sua mente o 
horror dos planos do av sobre o casamento.
Quando voltou a casa, ela sorria.
No pensava mais em si, e nem nos seus problemas, mas s em lorde Locke.
No dia seguinte, para alegria de Gytha, o cu estava muito claro.
A fina geada que havia coberto os gramados durante a
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madrugada, como um tapete branco, desaparecera por completo com o calor
do sol.
Gytha estava sem governanta no momento.
A ltima tinha sido dispensada pelo av quando ela completara dezoito 
anos.
No havia, portanto, ningum para lhe fazer perguntas sobre onde ia.
Sir Robert em geral s descia depois das onze horas.
Por isso, foi bastante fcil a ela correr para as estrebarias assim que 
terminou o caf da manh.
Hawkins a aguardava.
Gytha montou Dragonfly e o empregado um cavalo da mesma categoria, 
chamado Samson.
Partiram, dando a impresso aos cavalarios e ao chefe deles que iam dar 
um pequeno passeio, sem qualquer outra inteno em mente.
- Evite as estradas principais, miss Gytha - o chefe dos lacaios 
aconselhou.
- Por qu? - Gytha fingiu no saber a razo.
- H um grande nmero de carruagens se dirigindo  Locke Hall.
- Ah, obrigada, Abby, podemos seguir por outra rota ento
- Gytha respondeu, mostrando indiferena.
E s quando estavam bem longe da vista de todos, a jovem fitou Hawkins e 
viu que os olhos dele brilhavam.
Hawkins era um homem atltico, muito forte, ainda que de estatura baixa.
O pai de Gytha, contudo, sempre dissera que o preferia a qualquer outro 
empregado
- Ainda mais - o pai acrescentara -, no h ningum como Hawkins que 
possa me fazer sentir confortvel, mesmo que isso implique em torcer o 
pescoo de um frango para meu jantar ou me preparar uma cama decente e 
limpa dentro de um chiqueiro.
Sua me rira ao ouvir esse comentrio e dissera com voz
triste:
- Ah, querido, que bom se eu pudesse ir tambm para
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cuidar de seu bem-estar! Porm acho que voc no gostaria de me levar de 
acampamento em acampamento, no ?
- Prefiro saber que voc est aqui, meu tesouro - o pai respondera -, 
rodeada pelas coisas que ns dois escolhemos juntos para nosso lar. Mas 
prometo no ficar longe de casa nem um minuto a mais do exigido. Logo que 
puder, voltarei para seus braos!
E olhou para a esposa de uma certa maneira que Gytha sabia ser a 
expresso do amor sem palavras.
Depois se abraaram.
Ento ela saiu da sala, percebendo que ambos haviam se esquecido de sua 
existncia.
Mas o pai nunca mais voltou.
A casa onde tinham sido to felizes foi fechada, e s restou para as duas 
mulheres aquela enorme manso cheia de quartos escuros e vazios, e com a 
voz queixosa de seu av ressoando pelos cantos.
Ele continuamente encontrava defeito em tudo e em todos.
Cavalgando Dragonfly, Gytha se esquecia de seus problemas devido  
excitao pela corrida de obstculos que iria testemunhar.
E veria mais uma vez o heri das histrias que contava a si mesma cada 
noite, depois de apagar as velas ao lado da cama.
Ela e Hawkins atravessaram o parque, indo na direo costumeira, na 
hiptese de algum da casa os estar espionando.
Em seguida, tomaram o caminho da fazenda vizinha e foram a galope.
Passaram pelos campos onde, a mais ou menos trs quilmetros de 
distncia, se encontrava o limite da propriedade de seu av.
Ali ficava a muito disputada floresta, motivo do rompimento de relaes 
entre as duas famlias que viviam lado a lado por tanto tempo, sendo
mesmo impossvel falar sobre o condado sem se referir a elas.
- Que briga ridcula! - a me de Gytha comentara certa vez. - Quando ns
formos morar em Sullivan Hall, vou estender a mo amiga a todos os nossos 
vizinhos, incluindo lorde Locke.
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"E isso  o que farei", Gytha pensou, "se vov deixar para mim a casa e 
seu dinheiro. "
De repente, se lembrou das condies que vinham junto com essa herana.
Por segundos, o sol pareceu se eclipsar e uma nvoa impenetrvel o 
envolver.
Mas Gytha se esforou por esquecer sua mgoa e s pensar em lorde Locke 
que, para ela, seria o vencedor da competio. Cavalgavam devagar agora, 
atravs do bosque. Assim que saram do outro lado da floresta, Gytha 
concluiu que chegara ao lugar desejado.
Era uma elevao de terreno de onde o solo baixava em declive at o vale, 
local da corrida.
J se podia ver um grande nmero de espectadores em ambos os lados do 
gradil protetor da pista.
Como Hawkins antecipara, havia mais obstculos, e mais altos que os do 
passado.
No ponto de partida, alguns competidores circulavam vagarosamente com 
suas montarias.
Todos os animais eram puros-sangues, e os cavaleiros bastante jovens e 
elegantes, provavelmente vindos de Londres na maioria.
Usavam chapu alto, um n de gravata feito com esmero, palet de montaria 
impecvel e botas reluzentes.
De sbito, enquanto Gytha examinava um a um os cavaleiros, um garanho 
preto surgiu trotando no meio dos outros.
com o corao aos pulos, reconheceu lorde Locke. Ningum seno ele 
poderia cavalgar to bem assim, e nem havia cavalo algum comparvel ao 
fogoso garanho.
Observando-o, Gytha notou que mudara muito pouco desde a ltima vez em 
que o vira, h quase dois anos. E, essa pequena diferena era, sem 
dvida, para melhor.
Lorde Locke no tinha apenas um aspecto atraente, mas tambm insinuante 
e, do ponto de vista de Gytha, um ar de malandro, como o de um pirata ou 
o de um homem empenhado em tirar o mximo da vida.
Ela no entendia por que razo se interessava tanto pela aparncia de uma 
pessoa com quem jamais falara.
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No obstante, cada vez que via lorde Locke  distncia, lhe parecia que 
ele se destacava entre os que o rodeavam, incluindo os da mesma idade.
Podia v-los todos agora, rindo e falando com o anfitrio, que dava 
ordens e foi de pronto obedecido.
Os cavalos se alinhavam e os espectadores observavam tudo atentamente.
Um estampido de pistola deu incio  corrida.
Gytha segurava a respirao e, sem se dar conta, cavalgou para adiante,
aproximando-se da pista. Desceu pela rampa que levava ao vale.
Todos os cavaleiros saltaram o primeiro obstculo e apenas um no
conseguiu pular o segundo.
Na altura do terceiro, Gytha viu claramente que o garanho preto tomava
dianteira, no por muito, pois lorde Locke o segurava de rdea curta. Mas 
ele venceria, com certeza.
E assim prosseguiram saltando o lago e um outro obstculo, que aparentava 
ser mais alto que os primeiros.
Houve duas quedas e um cavalo fugiu. Agora chegavam ao fim da competio.
Era fcil se observar que a montaria de lorde Locke vencia todas as 
dificuldades sem grande esforo.
Finalmente, uma longa faixa plana levava  linha de chegada. Foi ento 
que lorde Locke deu rdea solta ao cavalo.
Havia trs outros cavaleiros bem junto dele, desafiando-o, e pareciam 
quase empatados.
Porm, no ltimo instante, quase como se lorde Locke erguesse sua 
montaria para conseguir isso, o garanho preto irrompeu na frente dos 
demais, tal qual um jato violento.
Ele ganhava uma corrida muito cansativa, considerando-se a extenso da 
mesma.
Gytha acompanhou-a com imensa concentrao. Torcera para que o cavalo de 
lorde Locke vencesse todos os obstculos.
Do incio do preo  reta final, ela quase conteve o flego.
E agora, no trmino, estava exausta como se tivesse tomado parte na 
corrida.
- O que foi que eu disse, miss Gytha? - Hawkins perguntou.
21
- No ignorava que sua senhoria ia ganhar. Ningum  melhor que
ele, ningum!
Gytha concordou com um aceno de cabea e, como no falasse nada, Hawkins 
prosseguiu:
-  uma pena no podermos dizer a ele como gostamos de tudo. Queria ver 
aquele cavalo mais de perto.
- Eu tambm - Gytha replicou.
- Sempre achei ser uma pena sua senhoria no poder ir a Sullivan Hall, 
considerando-se o fato de que o pai da senhorita salvou a vida dele.
Gytha encarou o empregado com olhos cheios de surpresa.
- O que voc quer dizer com "salvou a vida dele", Hawkins?
- O patro nunca contou essa histria?
- No, nunca, no a mim, pelo menos - Gytha respondeu.
- Quando foi que meu pai salvou a vida de lorde Locke?
- Quando estvamos em Portugal, miss, na primeira batalha em que sua 
senhoria tomou parte, depois de se engajar no regimento.
- E que aconteceu?
- Uma tropa francesa nos atacou inesperadamente e lorde Locke ficou preso 
embaixo de seu cavalo morto. ramos poucos, mais ou menos um ingls para 
cada seis franceses, e seu pai j tinha dado ordens para recuar. No 
havia nada a fazer! Ento, quando o tenente Locke caiu no cho sob sua 
montaria, o pai da senhorita empurrou o cavalo, inclinou-se e disse ao 
tenente: "Monte atrs de mim, rapaz, e rpido". Deu-lhe a mo, ajudou-o a 
subir no cavalo e galopou embaixo de uma saraivada de balas estourando 
nos ouvidos dele.
Gytha suspirou exclamando:
-  bem de meu pai fazer uma coisa dessas!
- Foi um milagre, miss! Lorde Locke teria morte certa se ficasse na 
retaguarda, enquanto toda a tropa inglesa galopava em retirada. - Hawkins 
riu e acrescentou: - Aposto que cada vez que ele pensa sobre isso,  
grato ao pai da senhorita por estar vivo, especialmente quando ganha uma 
corrida como a que acabamos de ver.
- Acho que sim, ele deve ser grato.
22
Gytha olhou para o vale e viu lorde Locke recebendo os cumprimentos da 
multido que se aglomerava em torno dele.
Os outros cavaleiros chegavam s agora, devagar.
Ento, Gytha teve uma ideia, to fantstica, to revolucionria, que 
quase no ousava expressar nem a si mesma!
23

CAPITULO II

Lorde Locke cavalgava triunfante para casa, com um sorriso nos lbios,
depois de ter recebido as congratulaes habituais dos que tomaram parte
na corrida.
J era bem tarde quando todo o grupo chegou  manso. Um almoo esperava 
pelos convidados, que deviam estar com muita fome.
No haviam comido quase nada antes, pois lorde Locke tinha por princpio 
nunca andar a cavalo imediatamente aps uma lauta refeio.
Por isso, no dava muita ateno aos hspedes que resmungavam devido ao 
longo atraso.
Sabia, contudo, que seu chef providenciara um magnfico banquete.
Lorde Locke, antes de sair, dera suas ordens ao encarregado dos vinhos, 
determinando o que devia ser servido.
Ele adorava esse tipo de reunio, e aguardava com ansiedade
tal evento, mesmo durante sua viagem de volta ao mundo.
Estava contente por ter conseguido provar que seu cavalo
era o melhor de todos, e os amigos esperavam de antemo que
ele seria o vencedor.
Na porta de entrada da majestosa manso, restaurada por seu av em meados 
do sculo dezoito, havia muitos lacaios aguardando pelos cavaleiros.
24
Ao apear, lorde Locke agradou seu garanho preto e disse ao cavalario:
- Hrcules portou-se exatamente como eu esperava, e sei que voc est to 
orgulhoso dele quanto eu.
-  o melhor cavalo que j tivemos em nossas estrebarias, milorde - o 
cavalario respondeu.
Lorde Locke subiu os degraus da escadaria do jardim e entrou no hall, 
seguido da maioria de seus hspedes.
A parou, atnito.
Perto das escadas que levavam ao segundo andar, numa pose deliberada, 
tendo por fundo o ouro e o cristal do corrimo, estava uma mulher que se 
encaminhou ao encontro dele.
- Est feliz em me ver, Valiant?
Surpreso seria a palavra, lorde Locke pensou, ou ainda, perplexo.
Mas, achando ser um erro dizer o que tinha em mente, apenas respondeu:
- No pensei, Zuleika, que estivesse na Inglaterra.
- Voltei para c h dois dias, e soube que voc tambm j tinha chegado 
de sua longa viagem.
E o fitava com olhos que falavam mais que seus lbios.
No se podia imaginar haver no mundo mulher mais linda.
A princesa Zuleika El Saladin era dessas misteriosas personalidades que 
aparecem de repente, como meteoros, no cu da sociedade.
 difcil classific-las, ou at entend-las.
A princesa surgiu em Londres, logo aps o trmino da guerra.
Os inimigos dela, e havia muitos, diziam que esperara pelo fim das 
hostilidades para ver que lado seria o vitorioso.
De uma beleza excepcional, ningum sabia por certo qual a nacionalidade 
dela, ou mesmo de onde tinha vindo.
Zuleika dizia-se russa, e com orgulho.
Aqueles que a conheciam bem, como lorde Locke, suspeitavam ser ela 
oriunda de alguma regio ao sul do mar Negro.
Mas Zuleika no se abria intimamente com ningum. Seria difcil, 
portanto, rejeitar sua afirmao de que era russa.
Casara-se uma vez com um nobre de sua nacionalidade e, mais tarde, com um 
homem de origem turca cujo nome ela ainda usava.
25
Insistia em ser chamada "princesa Zuleika", alegando ter direito a esse 
ttulo.
Os maridos, se  que possa ser dado esse nome aos vrios homens de sua 
vida, deixaram-lhe enorme fortuna, e ela havia comprado uma das maiores 
casas em Mayfair.
Oferecia festas fabulosas aos que no tinham nada mais a fazer para 
ocupar seus dias.
No ser um convidado dos bailes e recepes de Zuleika era um insulto que 
poucas pessoas ousavam arriscar.
A princesa tinha olhos escuros e brilhantes, corpo elegantssimo e jias 
que pareciam provenientes das cavernas de Aladin.
Era procurada por todos os homens do beau ton.
Mas, no momento em que ps os olhos em lorde Locke, no mais o deixou em
paz.
Teria sido impossvel para ele ignorar tanta insistncia vinda de pessoa 
to linda, pois homem algum podia deixar de admir-la.
Contudo, ele teve bastante bom senso para ver que estava se envolvendo 
por demais nesse caso amoroso.
E, para cortar o mal pela raiz, decidiu passar um ano viajando pelo 
mundo.
Visitou pases que estiveram fora do alcance dos ingleses durante os 
longos anos de guerra, e foi a Londres assim que
voltou.
L soube, com alvio, que a princesa Zuleika estava na
Frana.
E agora, quando menos esperava, ela reaparecia.
No em Londres, mas num lugar onde ele jamais pensou rev-la.
Lorde Locke beijou-lhe a mo  maneira continental, depois foi ao salo 
com ela a seu lado.
Tendo imaginado que, quando homens queriam falar sobre cavalos a presena 
de mulheres no era apropriada, ele fez questo de fazer essa festa 
exclusivamente para membros do sexo masculino.
E todos, sem exceo, tinham tomado parte na corrida.
- Voc quer almoar comigo? - ele perguntou  princesa, quando entravam 
no salo.
26
- Entre outras coisas que pretendo fazer com voc, sim, meu querido 
Valiant. Na verdade, embora no tenha sido convidada, estou aqui como sua 
hspede.
- Veio sozinha?
- Jamais ofenderia sua sensibilidade puritana fazendo tamanha bobagem! 
No, trouxe comigo duas acompanhantes nas pessoas de Lucy Compton e 
Caroline Blackstone.
Havia um sorriso sarcstico nos lbios de lorde Locke ao responder:
- Que maravilha!
Lady Compton e a condessa Blackstone estavam tendo um fervoroso e 
indiscreto affaire de coeur com dois cavaleiros da corrida, e ele 
concluiu que ambos ficariam encantados pelo fato de a princesa as ter 
trazido a Locke Hall.
No convidadas, mas plenamente aceitas, sem dvida, por seus amantes.
Lorde Locke e a princesa mal haviam entrado no salo e vrios 
competidores da corrida os cercaram.
Alguns segundos aps, lady Compton e a condessa chegaram, causando uma 
agradvel surpresa a todos.
Lorde Locke viu-se obrigado a providenciar companhia feminina aos outros 
homens, pois do contrrio se sentiriam negligenciados. E isso o 
aborrecia.
Aguardara com ansiedade, depois de vrias festas agitadas em Londres, por 
esses almoos nos quais se pudesse falar de poltica e esportes.
Tambm desejava passar os dois prximos dias na sela de um cavalo.
Tudo agora teria de ser alterado, devido  chegada da princesa.
No tinha ideia de como se livrar dela, sem fazer uma cena.
Sabia que tudo o que se fizesse ou falasse, fora do usual, seria repetido 
nos clubes de St. James.
Depois de verificar se os convidados estavam servidos de champanhe, ele 
retirou-se a fim de trocar seu traje de montaria. No conseguia se sentar 
 mesa sem se apresentar impecavelmente vestido.
Apesar de ser bastante tarde para o almoo, ele trocou de camisa, palet 
e gravata, antes de voltar ao salo.
27
Ningum notou sua ausncia, alm da princesa, que foi para o seu lado 
logo que ele voltou, descansando a linda mo de dedos finos e longos no 
brao dele.
Fitando-o, ela indagou com voz suave:
- Est contente em me rever?
Era difcil no lhe dar a resposta esperada.
Em seguida, deixando-a, lorde Locke comeou a encaminhar os amigos para o 
salo de refeio.
A comida estava excelente, e todos brindaram o anfitrio como o vencedor 
da prova equestre.
Beberam tambm em homenagem aos lindos olhos das trs mulheres presentes.
Lorde Locke sentia-se incomodado porque a princesa se comportava com 
muita familiaridade, demais em seu ponto de
vista.
Apesar da longa viagem que ele empreendera, encontrava agora as mesmas 
dificuldades que o haviam levado para fora da Inglaterra um ano atrs.
Por certo, a princesa tivera outros amantes durante esse tempo. Contudo, 
ele tinha a desagradvel impresso de que Zuleika lhe era, a seu modo, 
fiel.
No apenas por consider-lo o mais ardente amante que j tivera, mas 
tambm por no ter encontrado ningum da mesma categoria social dele com 
quem se casar.
Justamente essa inteno de Zuleika, de contrair casamento, apavorava
lorde Locke acima de tudo, porque era a ltima coisa no mundo que ele
tencionava fazer.
E, se um dia se decidisse a dar esse passo, no seria com uma mulher 
promscua como a princesa.
No era o tipo que ele idealizava para esposa, sendo ela, no obstante, a 
mais apaixonante e sedutora mulher que j
conhecera.
Todos os amigos o invejavam por causa de sua posio
privilegiada na vida da linda Zuleika.
Mas lorde Locke tinha muita fora de vontade e, uma vez decidido a 
executar qualquer empreendimento, ningum o demovia disso. E ele achava 
que chegara ao fim de seu romance.
28
Havia outras coisas a realizar na vida alm de amar Zuleika, a despeito 
de toda a atrao que ela possua.
A sociedade londrina sabia da ligao deles, e comentava que as 
brilhantes e fantsticas festas que ela dava eram inteiramente em sua 
homenagem.
Por isso mesmo ele sara de Londres, s contando aos amigos mais ntimos 
para onde ia, com medo de que Zuleika o seguisse.
Lorde Locke mandara a ela um lindo e caro presente com uma carta, 
agradecendo-lhe por todo o prazer que lhe proporcionara.
E tornou bem claro que se encerrava um captulo na vida de ambos e que 
talvez nunca mais se vissem no futuro.
E agora, como por magia, ela retornava, e lorde Locke no sabia o que 
fazer para se livrar da bela hspede.
Zuleika era persistente em conseguir o que desejava.
E, ainda que um homem fosse feito de ao ou de rocha, seria difcil 
resistir aos encantos dela.
Todos os homens presentes, com exceo dos dois ao lado de Lucy Compton e 
de Carolina Blackstone, pareciam fascinados por ela, como se estivessem 
encantados por uma serpente.
Porm Zuleika dirigia toda sua ateno a lorde Locke apenas, com um 
magnetismo oriental todo dela.
Findo o delicioso almoo, as visitas se levantaram da mesa, prontas para 
um pequeno descanso.
- Penso que vocs queiram repousar aps manh to extenuante, mas eu vou 
s estrebarias para ver como nossos cavalos esto sendo tratados - lorde 
Locke declarou.
- Espero que tenham bebido bastante champanhe para celebrar o magnfico 
desempenho deles nos novos obstculos algum falou brincando.
Zuleika aproximou-se de seu amante e pediu:
- No me deixe, Valiant. Quero falar com voc.
- Mais tarde, Zuleika. Agora tenho meus planos, pois no esperava que 
voc me fizesse essa surpresa.
Zuleika no gostou da resposta, mas ele, de qualquer maneira, a deixou no 
hall e foi aos estbulos.
Um de seus amigos mais ntimos, Peregrine Westington, alcanou-o.
29
- O que voc vai fazer com a princesa? - ele perguntou
de chofre.
Perry estudara na mesma escola que lorde Locke e havia servido no mesmo 
regimento. Era uma das poucas pessoas em quem ele confiava. Por isso, 
respondeu:
- No tenho a mnima ideia! Que posso fazer? Pensei, Perry, que ela 
tivesse me esquecido.
Peregrine Westington riu.
- Houve muitos homens danando  volta dela durante sua ausncia mas, 
nenhum deles, Valiant, que pudesse ser considerado um rival seu. E  bem 
dela pular em cima de voc agora, como uma pantera na mata.
Enquanto ele falava, lorde Locke conclua ser isso o que Zuleika era. Uma 
pantera negra, farejando a presa e saltando por cima dela quando menos se 
esperava.
Os dois amigos chegaram ao estbulo e no houve chance de dizerem mais 
nada.
Lorde Locke foi de baia em baia, admirando Hrcules em primeiro lugar e 
depois, no apenas seus prprios cavalos, mas todos os que tomaram parte 
na corrida.
Porm tinha a mente bastante ocupada com o problema referente a Zuleika.
Seu instinto o prevenia a no se envolver uma segunda vez com ela, do 
modo como fora antes da viagem.
Contudo, no ignorava a persistncia da princesa.
No conseguia se decidir em como contornar a situao sem que surgissem 
falatrios desagradveis e embaraosos.
Lorde Locke sentia-se no momento frustrado, e quase sem
esperanas.
Se havia uma coisa que ele detestava acima de tudo, era o tipo de homem 
que abandonava uma mulher chorando por
hav-lo perdido.
Ou, o que tambm no estava fora de cogitao, jurando vingana e 
incitando os amigos a uma verdadeira guerrilha nos crculos sociais.
Ele vira isso acontecer muitas vezes.
Sempre censurara o homem que agia dessa maneira, considerando-o 
30
inbil no relacionamento com mulheres, ou muito insensvel.
Lorde Locke desfrutara de uma infinidade de casos amorosos.
Mas tentava continuar amigo da mulher quando o affaire de coeur chegava 
ao fim.
Embora alguns coraes ficassem partidos, suas donas eram orgulhosas 
demais para se humilhar confessando o fato.
Zuleika, contudo, agiria diferentemente.
Primitiva e quase selvagem, usaria da mesma violncia na hora da vingana 
como na do amor.
No abandonaria com facilidade seu propsito em cativar e escravizar o 
homem desejado.
Se ele dissesse  princesa que no poderia ficar em sua casa, por ter 
chegado daquela forma, sem aviso prvio, ela com certeza o taxaria de 
grosseiro, mal-educado.
Poria metade do mundo social em defesa dela.
"Que diabos vou fazer?", ele se perguntava.
Assim pensando chegou  ltima baia e, distrado, agradou o cavalo 
pertencente a um dos amigos.
O cavalario encarregado enalteceu os pontos positivos do animal, mas 
lorde Locke no ouviu uma palavra do que ele disse.
E tomou o caminho de volta  casa.
Perry tentava acalm-lo.
- Estou pensando - ele observou -, que seria melhor voc convidar alguns 
vizinhos para jantar aqui hoje. Ao menos abrandaria a situao um pouco.
- J pensei nisso tambm. A dificuldade  que, tendo estado ausente por 
tanto tempo, eles podem se sentir magoados por esse convite tardio.
- Eu diria a verdade, Valiant. Conte-lhes que alguns amigos chegaram 
inesperadamente de Londres e que, ento, voc resolveu transformar uma 
festa ntima entre competidores numa reunio maior.
- Sua ideia  boa, Perry. Mas, c entre ns, vai ser uma grande amolao.
- Concordo, mas livrar voc desse tte--tte com Zuleika. Lorde Locke 
no respondeu.
31
Entrando em casa, foi direto ao escritrio e escreveu meia
dzia de notas.
Chamou seu secretrio para ordenar que mandasse vrios empregados com os 
convites aos vizinhos mais prximos.
- Espero que essas pessoas estejam em casa, Stevenson ele exps ao 
secretrio.
O sr. Stevenson era um homem de meia-idade que cuidava das propriedades e 
da casa de lorde Locke enquanto este permanecia ausente.
Stevenson olhou para os nomes e respondeu:
- Tenho certeza de que todos eles se encontram aqui no campo, milorde, e 
vo ficar encantados com o convite de vossa senhoria.
- Pense em outras pessoas para amanh, Stevenson.
- Pois no, milorde.
- Hoje  noite podemos jogar cartas, mas providencie uma orquestra para 
amanh.
O sr. Stevenson nem pestanejou. Acostumara-se s trocas de planos de sua 
senhoria. No pareceu a ele impossvel arranjar um conjunto musical em 
to curto tempo, naquela pequena aldeia. E, ainda mais, msicos de 
excelente qualidade. Stevenson apenas fez uma reverncia e saiu, levando 
consigo
as cartas.
Fez tudo com tanta presteza que, dez minutos mais tarde, os lacaios saam 
das cocheiras nas mais rpidas montarias.
Lorde Locke, para dar tempo  execuo dos novos planos, mandou que o 
jantar fosse servido bem depois da hora costumeira.
S isso consistiria em enorme surpresa para todos.
Sem dvida, os vizinhos teriam bastante curiosidade em v-lo, e gostariam 
de descobrir que espcie de gente era convidada para uma festa s de 
homens.
Ele pensava, naquele instante, se devia ou no comunicar aos hspedes j 
instalados a mudana dos planos, quando a porta se abriu e Zuleika 
entrou.
Estava linda. Lorde Locke no pde deixar de admirar o brilho dos olhos 
escuros numa face perfeitamente oval.
32
Os cabelos negros da princesa tinham reflexos arroxeados.
Contrastavam com a tez de magnlia, e no havia homem no mundo que no 
desejasse toc-la.
Os vestidos dela eram sempre confeccionados de modo a expor cada curva de 
um corpo sem defeitos.
com movimentos ondulantes foi de encontro a lorde Locke, e ele teve a 
impresso de que Zuleika estava nua por baixo daquele vestido.
No, no era impresso, era certeza.
Ela no falou at chegar bem perto dele. Ento, sem o tocar, tentou 
seduzi-lo com o poder da mente e o magnetismo do desejo de que se achava 
possuda.
Por segundos, apenas se fitaram.
Depois, com esforo evidente, lorde Locke afastou-se dela e foi para o 
outro extremo da sala, ficando de costas para a lareira.
- Voc no devia ter vindo aqui, Zuleika. Vai causar um falatrio
desnecessrio.
- E que importa?
Sua voz era sensual, convidando-o ao amor.
- Tenho de pensar em minha famlia. Antes de partir para aquela viagem, 
minha av estava se queixando sobre ns, por causa dos comentrios. No 
quero que isso acontea de novo.
Zuleika riu zombeteira.
- Meu querido e tolo Valiant. Voc realmente pensa que me importo com a 
opinio de sua av ou de qualquer outra pessoa? Senti falta de voc, 
desejo voc, e agora que est de volta, podemos ficar juntos como eu 
sempre quis.
Havia uma determinao nas ltimas palavras que fez lorde Locke ficar 
furioso.
- Acho, Zuleika, que preciso pr as cartas na mesa. Admiro voc, gostaria 
de a ter como amiga, mas na minha posio seria grave erro outras pessoas 
saberem demais sobre nossa vida particular. E, como deve ter percebido,  
difcil ter discrio onde voc aparece.
- E  o que no me interessa. Sabe bem o que eu almejo, Valiant. Preciso 
falar?
33
E, caminhando vagarosamente, chegou ao lado dele e inclinou
a cabea para trs.
Estava to linda que parecia impossvel a um homem recus-la.
O convite daqueles olhos e a provocao dos lbios eram
irresistveis.
Mas lorde Locke no se moveu.
Aps ligeira pausa, ela falou to suavemente que ele mal
pde ouvi-la:
-  necessrio que lhe pea aquilo que voc no me pediu? Foi ento, 
quando ele pensava com desespero o que responder, que a porta se abriu.
Era Perry.
O amigo percebeu, num relance, o que se passava. E, em tom de voz bem 
natural, exclamou:
- Ah, Valiant!  aqui que voc est? H uma pessoa que deseja ver voc e 
insiste em lhe falar a todo o custo.
- Parece se tratar de alguma reclamao! - lorde Locke
observou.
E virou-se para a princesa, desculpando-se:
- com licena, Zuleika. Sugiro que descanse antes do jantar, que ser bem 
tarde hoje. Convidei vrios vizinhos para nos fazerem companhia.
Por instantes viu-se uma fasca de dio nos olhos dela. Porm, com voz 
doce, declarou:
- Uma festa! Que delcia, querido Valiant!  em minha
honra?
Tocou-o no brao ao passar perto dele, com um sorriso nos
lbios.
E saiu da sala com tanta graa como se seus ps no encostassem no cho.
S depois que a porta foi fechada, lorde Locke deu um suspiro de
descontrao e exclamou:
- Graas a Deus, Perry, que voc veio em meu socorro!
- Desconfiei que estivesse em dificuldade, meu velho, quando vi que 
Zuleika no se encontrava com os demais no salo. - E indagou com 
cuidado, para no parecer interessado em assuntos ntimos: - Ela lhe 
pedia em casamento?
34
Lorde Locke assentiu com um gesto de cabea e acrescentou, irritado:
- Por que diabos fui cair nessa armadilha? No posso viver o resto de 
minha existncia dando voltas ao mundo para fugir dela, posso?
- No, claro que no. Mas, por outro lado, seria ridculo fazer um 
escndalo agora, com todos os seus amigos presentes. Sabe como Charlie e 
Tony so fofoqueiros!
Lorde Locke resmungou qualquer coisa e, antes que pudesse falar, o 
mordomo apareceu na porta.
- Miss Sullivan deseja saber, milorde, se o senhor pode lhe dar alguns 
minutos de ateno. Ela tem pressa de voltar
a casa.
- Ah! ento  verdade? Algum quer mesmo falar comigo?
- lorde Locke perguntou ao amigo.
-  verdade, sim - Perry confirmou -, e foi um bom pretexto, que chegou 
na hora certa.
- Trata-se de uma parenta de sir Robert? - lorde Locke indagou do 
mordomo.
- Sim,  a neta dele, milorde.
- Est aqui? Me visitando? Hoje  o dia das surpresas! Mande-a entrar, 
Bates. Tenho curiosidade em saber o que quer de mim.
Bates sorriu.
Ele sabia tudo muito bem sobre a briga existente entre os dois grandes 
proprietrios de terra, desde que entrara a servio da casa.
Assim que o mordomo saiu do escritrio, lorde Locke comentou:
- Sempre me recomendaram, desde criana, que no pronunciasse o nome 
Sullivan nesta casa. Os Sullivan nunca poderiam pr os ps neste 
territrio.
- Se ela veio para se queixar da muito disputada floresta, eu me retiro - 
Perry declarou. - Posso me lembrar de seu
pai, eu ainda um colegial, se inflamando ao falar sobre isso. Ele riu e 
depois acrescentou: - Sempre achei que qualquer pessoa com um tomo de 
bom senso teria dividido esse pedao de terra ao meio, e aceitado tal 
acordo como a soluo mais razovel!
35
Foi a vez de lorde Locke rir.
- Acho que nada to simples entraria na cabea de meu pai. Ele se 
propusera vencer a contenda, como tambm o "velho resmungo", como ns o 
chamvamos.
Perry riu novamente e encaminhou-se para a porta, dizendo:
- Boa sorte com a neta do "velho resmungo", mas tenha cuidado! Ela pode 
ser to perigosa quanto Zuleika.
E no aguardou pela resposta, retirando-se em seguida. Dois minutos mais 
tarde, Bates anunciava:
- Miss Gytha Sullivan, milorde.
Lorde Locke esperava ver uma mulher atltica, um tanto grosseira, de 
idade indefinida.
Para sua surpresa, a jovem que entrou na sala era pequena e frgil.
Usava um traje de montaria preto que punha em evidncia o ouro de seus 
cabelos, sob o chapu alto.
Tinha um rosto mido e enormes olhos cinzentos, contornados por clios 
muito escuros e curvos como os de uma criana, que lhe emprestavam uma 
expresso jovem e quase
suplicante.
Ao v-la mais de perto, ele achou que os olhos dela exibiam, bem no 
fundo, qualquer coisa de timidez.
Depois, concluiu que talvez fosse medo.
Estendeu-lhe a mo, exclamando:
- Que surpresa, miss Sullivan! Seja bem-vinda nesta sua primeira visita a 
Locke Hall.
- Sua manso  encantadora! Alis, como pensei! - Gytha respondeu com voz 
trmula. - Muito obrigada por me receber.
- Eu estou emocionado, principalmente se isso significar que a luta 
entre nossas duas famlias, de mais de trinta anos, chegou ao fim.
- Sinto muito no poder falar em nome de meu av, que por sinal nem sabe 
que vim aqui mas, quanto a mim... sempre quis me encontrar com o senhor.
Lorde Locke sorriu e ela acrescentou:
- Mas, em primeiro lugar, quero cumpriment-lo por seu magnfico 
desempenho na corrida desta manh.
36
Ele franziu as sobrancelhas.
Quer dizer que me viu?
Gytha confirmou com um gesto, porm havia um qu de travesso em seus 
olhos quando replicou:
- Eu vi tudo hoje, como tambm outras corridas suas no passado, da colina 
bem acima do vale.
Lorde Locke sabia ser esse o local da muito disputada floresta. Por isso 
riu.
- Ento, est garantindo os direitos sobre as terras! - Ele fingiu 
severidade.
- No, no! A nica coisa que me interessou foi apreciar seu cavalo, que 
por sinal  absolutamente... fantstico!
Ela quis continuar, dizendo que fantstico era tambm o cavaleiro.
E podia ver agora, de perto, que ele tinha aspecto muito mais atraente do 
que julgara.
Nunca o vira sem chapu.
Gostou dos cabelos dele e das bem definidas sobrancelhas escuras.
Parecia, de fato, um pirata.
Ao mesmo tempo, ningum poderia toma-lo por outra coisa alm de um 
verdadeiro aristocrata.
- Quer se sentar? - ele a convidou.
Gytha acomodou-se num sof, ao lado da lareira, e ficou em silncio.
Seu corao batia to forte como se fosse saltar do peito.
Agora se perguntava se teria coragem de lhe revelar o motivo de sua 
visita.
Como se tivesse notado a dificuldade da jovem, lorde Locke iniciou a 
conversa:
- Espero com grande curiosidade saber por que veio aqui, mas antes de 
tudo deixe-me lhe oferecer algo, uma taa de champanhe, talvez?
- No, no... No quero nada, obrigada, exceto lhe dizer o que me trouxe 
a esta casa.
Ela olhou para o outro lado enquanto dizia isso, e lorde Locke pode ver 
que estava muito sem jeito.
Gytha tirara as luvas ao entrar, e comeou a torcer os dedos.
37
No posso imaginar o que a preocupa - ele observou
a menos que seja outra vez a questo da divisa das propriedades.
- No  isso, no.  problema s meu... e vim lhe pedir auxlio.
- Claro que vou ajud-la, se for possvel.
- Tenho certeza de que, quando ouvir o que tenho a dizer, vai achar 
muito, muito estranho.
- Quero ouvi-la, miss Sullivan, e tentarei compreender o que me pede.
Para deix-la mais  vontade, lorde Locke sentou-se numa poltrona perto 
do sof.
Depois, percebendo como Gytha era tmida, insistiu:
- Estou deveras ansioso por ajud-la.
Falou em tom de voz ao qual poucas mulheres resistiriam. Gytha esboou um 
sorriso medroso antes de declarar:
- Soube apenas ontem, por intermdio de um empregado, que papai lhe
salvou a vida durante a guerra.
- Claro, e sempre fui muito grato a seu pai por isso. E, quero 
acrescentar que ele foi um comandante perfeito. Eu me sentia muito 
orgulhoso, como tambm os outros soldados, em servir no regimento de seu 
pai. No estava com ele por ocasio de sua morte em Waterloo, pois tinha 
sido transferido para outro batalho. E, embora no podendo me comunicar 
com sua famlia para dizer isso, fiquei extremamente pesaroso quando 
soube, s aps o trmino do combate, que ele no sobrevivera.
- Assim que meu pai partiu para a guerra, minha me e eu fomos morar com 
meu av na Casa Grande.
Lorde Locke no falou nada e ela prosseguiu:
- Mame morreu logo depois e, como vov  muito velho, vivi sozinha com 
ele todo esse ano que passou, no vendo quase ningum, exceto em algumas 
poucas vezes, quando ia a caadas.
Ela queria mostrar a lorde Locke como sua vida tinha sido solitria; 
depois, foi adiante em seu objetivo:
- H algumas semanas, os mdicos disseram que meu av no viveria mais 
que dois meses, trs no mximo.
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- Sinto muito - lorde Locke respondeu de maneira convencional.
- Penso que de certo modo ser um alvio, porque est sofrendo muito, o
que o faz uma pessoa desagradvel. Mas ele , o senhor deve saber, um
homem riqussimo.
-  o que sempre ouvi dizer.
Lorde Locke cogitava sobre onde Gytha queria chegar e o que tinha ele a 
ver com a riqueza de sr Robert.
- Vov decidiu que eu seria a herdeira dele. Ela falou com voz grave, 
quase em desespero. Lorde Locke ficou intrigado, mas murmurou:
- Meus parabns!
- No quero essa fortuna. Na verdade, preferia que vov me deixasse 
apenas o suficiente para viver. Mas, infelizmente, ele tomou esse 
propsito e nada do que possa lhe dizer surtir efeito.
Lorde Locke no sabia o que falar. Gytha, torcendo os dedos de novo, 
disse:
- Sempre soube que o senhor jurou nunca se casar.
-  verdade at certo ponto - lorde Locke confirmou.
- No pretendo me casar ainda e, como no tenho nem trinta anos, h muito
tempo diante de mim para providenciar um herdeiro.
Ele sorriu e acrescentou:
- Talvez seja difcil para voc tomar a mesma deciso, se  o que deseja,
pois  mais difcil para uma mulher.
Lorde Locke no podia imaginar aonde essa conversa o levaria.
Mas, por estar Gytha to angustiada, ele tentava o mximo que podia para 
acalm-la.
- Vov vem insistindo - ela explicou vacilante - para que me case com um 
de meus primos, Vincent ou Jonathan Sullivan e eu detesto a ambos.
Ela deu um soluo, antes de continuar:
- Qualquer coisa que eu diga... no vai funcionar. Tenho s dezoito anos 
e vov  meu tutor. Ele pode me forar a um casamento. No h nada que eu 
possa fazer a no ser que o senhor me ajude.
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Gytha no esperou que lorde Locke dissesse qualquer coisa, e prosseguiu:
Eu... achei... que se o senhor  realmente grato a meu
pai... por ter salvado sua vida... pode considerar uma dvida de honra 
no recusar o que sugiro.
- E o que voc sugere? Gytha respirou fundo.
- Que pea minha mo em casamento!
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CAPTULO III

Lorde Locke assustou-se e, como encarasse Gytha em completa perplexidade,
ela apressou-se em explicar:
- Seria um noivado s at vov... morrer. Depois disso,  claro, tudo vai 
ser cancelado.
- Eu no entendo o porqu de tal procedimento.
- Se eu ficar comprometida com o senhor... no poderei ser forada a me 
casar com um de meus primos.
- Tem certeza mesmo de que seu av insistir num casamento para o qual 
voc no se sente inclinada?
- J tentei persuadi-lo de que se trata de algo que no posso fazer. Mas 
ele se enfureceu, dizendo-me que, por ser meu tutor, eu tenho de obedec-
lo. - Gytha suspirou e prosseguiu, temerosa: - Entendo que  a lei e, 
como meus primos desejam o dinheiro de vov no almejam outra coisa seno 
se casarem comigo.
Lorde Locke no deu opinio e depois de segundos ela acrescentou, com voz 
trmula:
- Detesto Vincent e ele sempre me desprezou no passado. Jonathan  ainda 
mais repugnante. Tem mos midas e moles!
Gytha parecia apavorada.
E lorde Locke entendeu que ela no poderia aguentar que aquele homem a 
tocasse.
Mas, em contrapartida, o que lhe pedia era impossvel.
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Ele levantou-se e andou pela sala.
Parou perto da janela, olhando para o jardim inundado de sol.
Como conseguiria explicar a essa menina impulsiva que o pedido dela era 
impraticvel e ridculo?
Nesse momento, enquanto admirava as rvores que comeavam a se tingir das 
tonalidades de outono, ouviu um rudo.
Era Gytha que se retirava.
- Aonde vai? - ele perguntou com autoridade.
Ela parou.
Havia qualquer coisa naquela quase criana que o fez compar-la a uma 
colegial apanhada em falta.
- Foi um erro de minha parte ter vindo aqui. Mas estava to... 
desesperada... e quando soube que meu pai... havia salvado sua vida 
pensei que o senhor me compreendesse.
- Venha c e sente-se - lorde Locke insistiu. - Vamos ver se podemos
encontrar uma soluo para seu problema.
Fez uma pausa antes de continuar:
- No quero que me considere um ingrato. Sei que estou tendo oportunidade 
de viver por muito mais tempo que os franceses desejariam, graas a seu 
pai.
Sorriu para ela, com muito carinho. Gytha o achou novamente irresistvel, 
mas no se moveu. Apenas disse:
- Acho melhor... eu ir... para casa.
Lorde Locke pensava numa maneira de socorr-la.
Foi quando se lembrou de que um auxlio prestado a Gytha poderia ser a 
resposta ao seu caso em relao  princesa Zuleika.
Ficara to perplexo com a histria de Gytha, to assombrado, que tinha 
at se esquecido das prprias dificuldades.
E agora, era como se estivesse pondo nos lugares certos as peas de um 
quebra-cabea.
A ideia que lhe veio  mente impossibilitaria Zuleika de se comportar 
daquela maneira ultrajante, como vinha fazendo.
No espao de dois meses, ela poderia transferir, sem dificuldade, sua 
afeio para outro homem.
- Venha aqui e sente-se - ele repetiu.
Havia autoridade em sua voz e Gytha obedeceu.
Lorde Locke notou que ela se movimentava com cuidado.
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parecia um animalzinho com medo de ser apanhado numa armadilha.
Gytha sentou-se na beirada do sof e levantou os olhos assustados para 
ele.
Lorde Locke concluiu ser ela de fato a mais linda jovem com quem se 
encontrara nos ltimos tempos.
Ele permaneceu de p, de costas para a lareira, e tentou entender a 
situao.
- Vamos falar com clareza. Seu av quer faz-la sua herdeira, mas insiste 
que voc se case com um de seus primos por temer os caadores de dotes.
- Isso  o que o assusta. E no h motivo para ele pensar que o senhor 
seja um deles.
-  verdade. Mas, como minha famlia viveu de armas em punho contra a sua 
por tantos anos, ele pode recusar nossa proposta.
- Pensei nessa hiptese enquanto vinha para c. Mas tenho a impresso, 
ainda que possa estar errada, de que vov se impressionou muito com as 
histrias ouvidas sobre seus atos de bravura e sobre as medalhas que o 
senhor conquistou por sua coragem.
E a voz de Gytha tornou-se muito comovente quando disse:
- Meu av tem tanto orgulho de papai! - Sempre desconfiei que ele 
desprezasse Vincent e lonathan por no terem se alistado para servir na 
guerra.
- Entendo seu ponto de vista, mas no penso que ele v me receber de 
braos abertos, no. Talvez consinta num noivado secreto, o que nos dar 
tempo para encontrarmos outra soluo.
Quase como se ele lhe tivesse perguntado, Gytha falou:
- Os mdicos garantiram... que vov no vai viver... muito mais que dois 
meses, se tanto.
Houve uns segundos de silncio e ela se desculpou:
- Vejo agora que foi insolncia minha... vir aqui.
- Ao contrrio, acho que voc agiu com muita sensatez. Eu, na verdade, 
tenho para com seu pai uma dvida que nunca poder ser paga na 
totalidade.
- Talvez tenha sido... um erro... lembrar-lhe dessa dvida.
- No, voc est certa, muito certa. E por esse motivo, miss
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Sullivan, vou fazer o que me pede, com a condio,  claro, de que nosso 
compromisso termine quando seu av no estiver mais entre ns.
Gytha juntou as mos ao perguntar:
- Verdade? O senhor vai mesmo fazer isso?
- Vou e, por ter voc manobrado essa situao to bem at agora, peo que
me sugira exatamente sobre o que devo fazer para me aproximar de seu av.
- Antes de tudo, quero lhe agradecer. Achei que o senhor... recusaria. 
Nesse caso eu daria fim a minha vida, pois prefiro morrer a me casar com 
homens to repulsivos como meus primos!
- No fale assim - lorde Locke repreendeu-a. - Voc  jovem, bonita, e
tem diante de si uma vida cheia de alegrias, garanto.
Ele sorriu antes de continuar:
- Esse  apenas o primeiro obstculo a vencer, e haver, sem dvida, 
dezenas de outros.
- Se puder saltar todos os obstculos como seu cavalo o fez esta manh... 
no preciso mais me preocupar.
- Espero que possa. E agora, miss Sullivan, ou talvez deva cham-la pelo 
nome de batismo, desde que vamos ficar noivos, que deseja que eu faa?
- Considerando que meus primos vo chegar... amanh  tarde...  
importante que o senhor fale com vov hoje mesmo, em lugar de amanh 
cedo, quando geralmente ele no est de muito bom humor.
- Entendo. Nesse caso, vou com voc j.
Lorde Locke percebeu, pela expresso do rosto de Gytha, que esse era o 
desejo dela.
Ao olhar para o relgio, ele teve uma ideia.
- Vou conversar com seu av - declarou -, e ao mesmo tempo, porque isso 
vai me ajudar muito, ficaria extremamente grato se voc jantasse aqui 
hoje.
- Jantar... com o senhor?
Gytha jamais teria imaginado receber tal convite.
- Se fssemos ficar noivos de verdade - ele observou -,  o que ambos 
desejaramos.
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- ... acho que sim. Mas se o senhor est dando uma festa. - seus amigos 
podem achar isso um tanto estranho.
- O que vou sugerir  que conservemos nosso compromisso em segredo para 
todos, com exceo de dois ou trs amigos ntimos.
Gytha concordou com um gesto, e ele prosseguiu:
- E a participao parecer muito mais digna de crdito se formos vistos 
juntos antes, em vez de voc surgir em minha vida como uma criatura 
misteriosa -da qual nunca ouviram falar.
- Posso entender... sua preocupao - Gytha murmurou, nervosa.
Ela pensava o tempo todo que nunca, por um segundo sequer, visualizara a
vida dela to junto  de lorde Locke.
E tinha prazer em imaginar que ele aparecera de repente, como Perseu 
salvando Andrmeda.
Contudo, era bastante inteligente para compreender as razes que ele 
expunha, por isso aceitou o convite:
- Se  o que o senhor deseja... virei jantar aqui. Mas espero no lhe 
causar nenhum vexame... pois no estou acostumada  companhia de pessoas 
estranhas.
- Tenho certeza de que no me vai embaraar. E, como est ficando tarde, 
que tal eu ir com voc a fim de falar com seu av agora?
- Mas eu vim... a cavalo.
- timo, as coisas ficam ainda mais fceis e mais rpidas, porque podemos 
cavalgar atravs dos campos, percorrendo menor distncia.
Lorde Locke tocou a sineta e, quando Bates apareceu, ele disse:
- vou  casa de miss Sullivan e quero um cavalo j. Tambm, Bates, diga 
ao sr. Stevenson que miss Sullivan ser minha convidada para o jantar 
desta noite.
- Muito bem, milorde.
Bates era bastante treinado; no demonstrou surpresa. No obstante, no 
pde evitar um qu de curiosidade na expresso de seus velhos olhos.
Assim que ele fechou a porta, lorde Locke pediu:
- Agora eu insisto, Gytha, que tome um copo de champanhe
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comigo, no somente porque acho que voc precisa disso, mas tambm
porque devemos beber ao sucesso de nosso pequeno empreendimento.
Ele foi  bandeja onde estavam as bebidas e encheu duas taas com 
champanhe, de uma garrafa que estava no balde de gelo.
Ofereceu uma a Gytha.
Ela se levantou e lorde Locke viu, ento, como era pequena e frgil.
E tambm, muito necessitada de proteo.
Gytha pegou a taa e, antes que ele dissesse qualquer coisa, ela falou:
- Em homenagem a Hrcules... e ao seu muito bondoso proprietrio.
Lorde Locke riu.
- Voc ganhou de mim, Gytha, atingiu a linha de chegada antes, pois eu 
tencionava beber  sua sade. No entanto, deixe-me dizer que espero que 
ambos tenhamos o mesmo sucesso de Hrcules. E preciso lhe confessar, 
tambm, que voc foi muito corajosa em vir at mim, em busca de auxlio.
- Mas eu estava... com medo. E ainda... estou, para ser franca.
- Acho que eu  que devia ter medo. Sempre me foi ensinado que seu av 
era um feroz e temvel inimigo.
Gytha concordou ser essa uma boa descrio de seu av. Mas, no querendo 
assustar lorde Locke, ela tentou tornar as coisas mais suaves.
- Ele est muito velho e gravemente enferrrto, embora no reconhea isso.
Gytha tinha bebido apenas um pouco do champanhe quando Bates os informou 
de que os cavalos estavam  espera.
-  melhor irmos j - lorde Locke declarou.
Gytha saiu na frente dele e, quando chegou no hall, deparou com um rapaz 
alto, simptico, que se dirigiu ao anfitrio.
- Ouvi dizer que voc vai sair, Valiant. Ao falar, tinha os olhos postos 
em Gytha.
- H algo importante a fazer, Perry. Se chegar um pouco tarde, por favor, 
cuide de meus hspedes at minha volta.
Peregrine franziu o sobrolho.
Miss Sullivan vai jantar conosco - lorde Locke comunicou. Depois, olhou 
para Gytha que j estava bem diante deles, dizendo:
- Posso lhe apresentar a meu amigo Peregrine Westington? Ele tambm 
serviu sob o comando de seu pai em Portugal.
Uma chama de prazer brilhou nos olhos de Gytha  meno do nome do pai.
Ela estendeu a mo a Perry.
- Talvez algum dia possamos falar sobre meu pai - ela disse.
- Isso me dar enorme prazer - Perry replicou.
Lorde Locke viu os cavalos esperando por eles ao p das escadas do 
jardim.
Ento convidou Gytha para sair, no ignorando que Perry o fitava com 
surpresa no olhar.
Gytha sabia que tinham muito pouco tempo, e ambos, ela e lorde Locke, se 
puseram a caminho atravs dos campos, o que os fez cobrir a distncia 
entre as duas casas muito mais rapidamente do que pela estrada normal.
Dragonfly portou-se bastante bem.
E Gytha concluiu que no era muito inferior ao cavalo de lorde Locke.
Ao contrrio, tinha aparncia quase to majestosa como a do garanho 
preto que vencera a corrida.
S quando estava bem perto de sua casa foi que ela comeou a ficar 
nervosa.
No cogitara sobre o que fazer no caso de o av ter uma das crises de 
fria, ou mesmo de exigir a retirada imediata de lorde Locke da manso.
Lembrando-se do drama do passado, ela admitia que o av pudesse chamar os 
empregados para expulsar seu inimigo do lar.
Contudo seu instinto, que alis nunca falhava, lhe dizia que o av, no 
fundo do corao, nutria desprezo pelos sobrinhos.
E no se agradava muito da ideia de v-los gastando seu dinheiro.
Ao chegarem  porta da entrada, um cavalario se aproximou deles para 
cuidar dos cavalos.
Gytha viu espanto na cara do empregado, ao ver lorde Locke com ela.
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Recordou-se novamente da briga entre as duas famlias, que durava j 
muitos anos.
No houve comunicao nenhuma entre elas, a no ser atravs de cartas 
ofensivas.
Gytha e o visitante subiram, lado a lado, as escadarias do jardim.
com ar divertido, lorde Locke animou-a, dizendo:
- No tenha medo. Isto ser nossa "Waterloo", e vamos sair vitoriosos, 
voc vai ver.
Gytha lhe enviou um sorriso de gratido.
Mas havia tremor em sua voz quando perguntou ao lacaio:
- Onde est... sir Robert?
- Na biblioteca, miss. Perguntou pela senhorita h poucos minutos.
Gytha e lorde Locke foram para l.
Quando ela tirou o chapu, seus cabelos pareciam um raio de sol em 
contraste com a escurido do corredor.
Um lacaio abriu a porta da biblioteca onde estava sir Robert, sentado na 
cadeira de rodas, perto da janela.
Ele gostava de ficar naquele lugar, apreciando o pr-do-sol.
Tinha o cenho franzido, o semblante carregado.
E Gytha sabia, mesmo antes de falar com o av, que ele estava furioso por 
no a ter encontrado antes.
Mas ela ficou aliviada ao ver que Dobson, o valete de sir Robert, no 
estava presente.
O velho virou a cabea e repreendeu-a:
- Ento chegou, hein? E mais que na hora!
Nesse momento, ele viu que a neta estava acompanhada. Fitou lorde Locke 
com indisfarada curiosidade. Gytha foi para o lado do av e, com voz 
muito fraca e medrosa, balbuciou:
- Trouxe lorde Locke... para falar com o senhor, vov. Ele quer lhe
comunicar que desejamos... ficar noivos.
- Locke? Voc falou Locke? - o velho urrou. Lorde Locke estendeu-lhe a
mo e disse:
- Muito prazer em conhec-lo, sir Robert.  uma coisa que quis fazer h 
anos. Tenho certeza de que o senhor vai concordar comigo de que j  
tempo de vivermos em paz.
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No vamos deixar que algo to pouco importante como Monk's yVood separe 
nossas famlias.
Sir Robert o encarava atnito.
Voc est querendo me dizer que  o jovem dono de
Locke Hall, onde no ponho os ps h mais de vinte e cinco
anos?
- Eu mesmo, sir Robert, e agora que meu pai j morreu, e que desejo me 
casar com sua neta, gostaria de fazer as pazes, oferecendo-lhe Monk's 
Wood.
- Fazer as pazes? Me dar Monk's Wood? Que diabos pretende dizer com isso? 
Monk's Wood  minha propriedade e sempre foi!
- Ento, digamos que eu renuncie a todos os direitos sobre a floresta, e 
tambm lhe garanta tir-la dos mapas de minha propriedade?
- Espero mesmo que o faa. Foi uma grande ousadia p-la nos mapas, para 
incio de conversa.
- Concordo com o senhor, sir Robert.
- Voc quer me "pr mel nos beios"? Est de olho em minha neta? Por isso
tanta generosidade?
- Alis atitude muito compreensvel, sir, pois sua neta  linda, de uma 
beleza fora do comum.
- com certeza est de olho em meu dinheiro tambm. Deve saber que ela vai 
herd-lo quando eu morrer! - sir Robert falou com grande hostilidade.
- De forma alguma, sir. Meu pai me deixou numa situao bem confortvel, 
e no tenho interesse no dote que minha futura esposa possa ter.
- Confortvel, hein? Muitas vezes me perguntei se ele era rico como se 
falava por a.
- Posso lhe afianar, sir, que todas as histrias que ouviu sobre a 
fortuna de meu pai no continham exagero de forma alguma.
Houve uns segundos de embaraoso silncio.
Gytha teve medo de que o av insultasse lorde Locke.
Por essa razo, ps a mo no brao do velho e pediu:
- Por favor, vov, deixe-me ficar noiva de lorde Locke. Em vez de dar seu 
consentimento, sir Robert explodiu:
- S agora estou pensando, Gytha. Como teve a audcia
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de se encontrar com esse homem, se foi proibido at se mencionar o nome 
dele nesta casa?
- Seja sincero, vov... aposto que o senhor j soube como ele venceu 
brilhantemente a corrida desta manh.
- Uma vitria com pequena margem, segundo me contaram
- sir Robert resmungou.
Gytha deu um grito de alegria.
- Ento o senhor soube! Tinha certeza de que se interessaria pela 
competio. Apenas desejei que o senhor tivesse assistido, foi 
emocionante! E os obstculos eram mais altos que nunca!
O av fitou-a intrigado.
O que a neta acabava de dizer confirmou suas suspeitas de que ela
presenciara outras corridas no territrio proibido.
Ento, decidido a encaminhar a conversa para um terreno mais agradvel, 
lorde Locke props:
- O que posso fazer, sir Robert, se o senhor tem interesse,  trazer meu 
garanho para o senhor ver.  um cavalo excepcional, e gostaria de ter 
sua opinio.
- Voc faria isso? - sir Robert indagou, mal podendo acreditar no que 
ouvia. - Bem, como no posso sair desta maldita cadeira,  melhor que 
traga esse animal aqui o mais depressa possvel, porque meu estado de 
sade no  bom.
"Ento ele sabe", Gytha pensou. " bem de meu av esconder de todos o que 
j pressentiu. Ningum nunca se atreveu a lhe falar o que quer que fosse 
sobre a gravidade de sua doena. "
E, por estar ele mais ameno, arriscou:
- Agora que o senhor j viu lorde Locke, vov, e sabe que magnfico 
cavaleiro , pode entender por que desejo me casar com ele?
- Voc o prefere, suponho, a um de seus primos? - si Robert indagou.
- Ele serviu no batalho de papai e, embora s tenha sabido recentemente, 
papai... salvou-lhe... a vida.
- Eu sabia.
- Sabia, vov? Mas por que nunca me contou?
- Disse a seu pai que foi um grande erro se confraternizar com o inimigo.
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Sir Robert falava com rispidez.
jyfas havia qualquer coisa nos olhos dele que fez lorde Locke sorrir.
- De minha parte, sir, sou muito grato por estar vivo, e acho que o 
destino nos juntou, a Gytha e a mim.
- Se quer minha opinio, no considero nem um pouco decente se 
encontrarem nas minhas costas - sir Robert falou.
- Perdoe-me, vov, por favor, e permita-me ficar noiva de lorde Locke.
- No quero tomar nenhuma deciso s pressas - o velho respondeu. - E, um 
bom cavaleiro no  necessariamente um bom marido!
- O senhor ao menos concorda - Gytha gaguejou - que fiquemos noivos em 
segredo, at o senhor conhecer lorde Locke melhor? Vai aprov-lo, estou 
certa! Ento, poder informar Vincent e Jonathan... que no h razo para 
se casarem comigo.
A voz de Gytha tremia quando ela pronunciou as ltimas palavras. Estava 
com muito medo e viu que tinha motivo, ao ouvir a resposta de sir Robert:
- Assim so as coisas! Para no se casar com um de seus primos, voc 
aceita as atenes de qualquer bobalho que aparece em sua frente.
- Ah, vov, isso no  justo! No pode chamar lorde Locke de bobalho, 
depois de todas as condecoraes que ele recebeu.
O velho no respondeu.
Parecia um tanto envergonhado por causa de seu comentrio grosseiro.
Ento, como se necessitasse defender seu ponto de vista, ele resmungou:
- Faam como quiserem, mas eu no tornarei esse noivado pblico at 
conhecer lorde Locke melhor, e at estar convencido de que no quer 
apenas me comprar com a oferta de uma floresta que sempre foi minha.
- Gostaria tambm que o senhor considerasse que, quando Gytha e eu nos 
casarmos, as duas propriedades se juntaro numa s, transformando-se na 
mais importante do condado e maior do que a de qualquer outro senhor de 
terras.
Gytha deduziu ser esse o argumento mais forte de todos.
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Era o que o av mais apreciaria.
Porm, para no concordar rapidamente com o que fora exposto, ele 
insistiu:
- Ser um noivado secreto, nenhuma palavra a ningum. Entendido? Nenhuma 
palavra! No quero saber de comentrios na Gazette at eu saber mais 
sobre voc, meu rapaz, e  bom que as referncias sejam a seu favor.
Em seguida, antes que lorde Locke pudesse responder, ele gritou:
- Estou cansado!  hora de eu ir para a cama. Onde foi parar esse Dobson?
Assim que ele acabou de falar, o valete entrou. Gytha tinha certeza de 
que estivera escutando tudo atrs da porta.
O empregado correu para perto de seu amo, dizendo:
- Estou aqui, sir Robert.  hora de o senhor ir para a cama.
- E no sei, seu tolo! Falei isso agora mesmo. Leve-me para a cama!
Gytha inclinou-se e beijou o av.
- Boa noite, vov, e obrigada por ter sido to bondoso. Lorde Locke e eu 
vamos fazer direitinho o que o senhor mandou.
-  bom que faam, ou no haver mais namoricos para vocs! A ter que 
se casar com o homem que eu escolher.
Dito isso, a cadeira de rodas foi puxada para fora da sala. Ainda se 
podia ouvir sir Robert resmungando com seu valete enquanto seguiam pelo 
corredor.
Gytha sentiu as pernas bambas e sentou-se numa poltrona.
- Desculpe... muito - ela falou, com voz sumida.
- Ele  sempre assim, se queixando de tudo? - lorde Locke indagou, com
pena da pobre Gytha.
- Voc disse "se queixando?" Eu lhe garanto que ele foi encantador hoje,
muito diferente do que costuma ser. - Ela suspirou e prosseguiu: - Ele
grita, urra, e culpa todos os empregados por coisas que eles geralmente 
no fizeram.
- E voc vem aguentando isso por muito tempo?
- Desde que mame... morreu. E viver sozinha com ele nesta enorme casa  
muito, muito difcil.
- Posso entender, mas ter a oportunidade de mudar um pouco de cenrio ao 
menos esta noite.
52
Lorde Locke se dirigiu  porta e acrescentou:
- V se vestir, Gytha. V se fazer bonita para a festa. Mandarei uma 
carruagem daqui a uma hora.
- Posso ir na carruagem de meu av - Gytha sugeriu.
- Pode aborrecer seu av, tirando os cavalos da estrebaria  noite. 
Quanto aos meus, at  bom que faam algum exerccio! No se atrase, pois 
h uma pessoa a quem quero apresent-la antes do jantar.
No explicou quem era.
Antes que Gytha pudesse lhe fazer perguntas, ele j tinha sado.
"No tive chance de lhe agradecer", ela pensou.
Depois, lembrou-se de que poderia faz-lo  noite.
Mas, quando subiu para se trocar, desejou no ter concordado com o jantar 
em Locke Hall.
Por certo seria uma festa grande. Como explicar sua presena l?
Outros moradores do condado tambm iriam ao jantar e, sem dvida, 
achariam estranho encontr-la na companhia de lorde Locke.
Tudo parecia muito complicado.
Ao mesmo tempo, mal podia acreditar que seu plano tinha dado certo.
O av havia concordado em no a forar ao casamento com um dos primos.
Lorde Locke achara sir Robert uma pessoa difcil, mas ela nunca o vira 
to cordato.
Mostrou-se at contente com o arranjo.
"Ele tem muito prazer em que me case com lorde Locke, pois isso vai unir 
as duas propriedades".
De sbito, pareceu a ela uma atitude desleal a de enganar um moribundo.
Mas se convenceu de que era desculpvel, considerando-se seu estado de 
desespero.
Nada podia ser mais horrvel do que casar com Vincent ou Jonathan.
- Se vai jantar fora, miss, que roupa quer usar? - a criada de quarto lhe
perguntou.
Nesse instante, Gytha acordou para a dura realidade.
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Tratava-se de jantar muito elegante, com os amigos de lorde Locke, e ela 
no possua nada decente para vestir.
Nunca houve justificativa para ela adquirir vestidos novos e especiais.
Mesmo que conseguisse convencer o av a lhe comprar um, no lhe parecia 
haver motivo para isso.
Jamais ia a parte alguma.
Jantava em geral sozinha, na saleta ao lado de seu quarto.
Uma vez por outra, quando os primos ou quaisquer parentes vinham visit-
los, comiam na grande sala de jantar.
"No posso ir a Locke Hall com as roupas que tenho!", ela repetia a si 
mesma em pnico.
Como me apresentar tal qual uma Gata Borralheira em festa to chique?
Contudo, lorde Locke insistira nessa visita, pois pretendia comunicar aos 
amigos ntimos o noivado.
Ele fora to amvel com ela, to compreensivo!
No podia faltar ao compromisso.
Enfim, depois de muita hesitao, decidiu-se por um vestido simples, de 
musselina estampada.
A costureira que ia habitualmente a casa para consertar a roupa de cama,
fizera para ela.
O tecido tinha sido comprado por sua me, alguns anos antes de ela
morrer, e a costureira copiara o modelo do Ladis Home Journal.
O artigo da revista dizia que aquele vestido fora usado por uma das mais 
elegantes anfitris de Londres.
Mas mesmo assim Gytha no o achava apropriado para o jantar daquela 
noite.
Por ser ela bastante magra, a toalete a fez parecer ainda mais jovem, e 
um tanto etrea, como uma ninfa surgida da floresta.
Havia fitas de um tom verde claro, da cor das folhagens das rvores, 
enfeitando o vestido.
A bainha e a beirada das mangas bufantes eram rematadas por um babado da 
mesma fazenda.
E, na saia, aplicaes de renda delicada completavam a leveza do vestido.
A nica jia de Gytha era um colar de minsculas prolas,
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presente do pai  sua me, no primeiro aniversrio de casamento.
Lembrana modesta, porque ele nunca tivera muito dinheiro disponvel.
Sir Robert achava que jias caras deviam ser dadas s por ele mesmo.
E esse colar era o mais valioso tesouro da sra. Sullivan.
Ao coloc-lo no pescoo, Gytha rezou para que sua me a guiasse. Tinha a 
convico de que o pai j a havia protegido, impedindo seu casamento com 
um dos primos.
Gytha fez uma orao a ambos:
"Obrigada, papai, por ter salvado a vida de lorde Locke, pondo-o numa
situao devedora, o que concorreu para que ele me socorresse agora.
Ajude-me, mame, e faa com que lorde Locke no tenha vergonha de mim 
esta noite".
A carruagem, maior e mais luxuosa do que ela imaginara, chegou na hora 
certa. Era puxada por cavalos muito superiores aos da estrebaria de seu
av.
O lacaio cobriu as pernas dela com uma manta, antes de partir.
Gytha estava bastante nervosa.
Tudo isso se constitua, porm, numa aventura que ela, se se casasse, 
contaria aos filhos com grande prazer, pois era emocionante voltar a 
Locke Hall pela segunda vez no mesmo dia.
Iria poder olhar para lorde Locke novamente e conversar com ele.
Nunca pensara, ao apreci-lo de longe nas caadas ou corridas, que teria 
chance de v-lo de perto.
 verdade que, sonhando acordada, se vira muitas vezes como noiva dele.
"Estou to contente e grata... to grata por tudo...", ela sussurrava.
A carruagem entrou no ptio de Locke Hall.
Um tapete vermelho cobria o cho de lajes cinzentas.
E uma luz brilhava atravs da porta de entrada, aberta agora.
Lacaios, com suas librs impecveis, aguardavam as visitas.
O corao de Gytha comeou a pulsar com mais fora.
Teve vontade de fugir, to acanhada se sentia. Mas um amorPrprio que ela 
no sabia ser to intenso, veio em seu auxlio.
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Desceu da carruagem e atravessou o ptio devagar e com dignidade, at o 
hall profusamente iluminado.
- Boa noite, miss - Bates disse com respeito. -  um grande prazer 
receb-la aqui mais uma vez hoje.
Gytha sorriu, e ele acompanhou-a pela casa adentro. A caminho do salo, 
passaram pelo local onde ela estivera naquela tarde, e ali entraram. Era 
o escritrio de lorde Locke.
- Miss Gytha Sullivan! - Bates anunciou.
Ela viu ento que havia apenas dois homens naquela sala. Um era lorde 
Locke, elegantssimo em seu traje de gala, cales at os joelhos e meias 
de seda. O outro, o rapaz que ela encontrara  tarde, o amigo Perry.
Lorde Locke foi ao encontro de Gytha.
Tomou-lhe a mo e, para grande surpresa dela, beijou-a  maneira 
continental.
- Voc  muito pontual - ele disse -, e estou na verdade grato por isso.
- Quero cumpriment-la - Perry interps - pelo seu noivado, e desejo a 
ambos toda a felicidade deste mundo.
- Obrigada - Gytha respondeu, tmida.
- Queria lhe dizer... - lorde Locke comeou a falar. Mas antes que 
pudesse terminar, a porta se abriu e a mulher
mais linda j vista por Gytha entrou.
Usava um vestido maravilhoso mas, ao mesmo tempo, o decote exagerado e a 
saia transparente o tornavam quase um ultraje  moral.
As jias que ela trazia consigo pagariam, talvez, o resgate de um rei, 
Gytha pensou.
A mulher se encaminhou com uma graa felina para o lado de lorde Locke, e 
ps o brao no dele.
- Recebi um recado de que voc queria falar comigo, Valiant - ela se 
expressou com voz aveludada -, e conclu que estaramos sozinhos, mas...
- Quis v-la Zuleika, antes de irmos para o salo - lorde Locke a 
interrompeu - para que compartilhe de um segredo que no vai ser
conhecido do pblico por algum tempo ainda.
- Um segredo? Que segredo voc pode ter comigo, meu querido?
56
- Quero que voc conhea minha noiva, miss Ghyta Sullivan.
Por momentos, o silncio foi completo. Podia-se ouvir uma mosca voar.
Pareceu a Gytha que todos, na sala, se haviam transformado em esttuas de 
pedra.
Ento, com certo esforo, lorde Locke continuou:
- Gytha, a princesa Zuleika El Saladin  uma velha amiga minha, e eu quis 
que ela fosse uma das primeiras pessoas a nos congratular pelo nosso 
noivado, juntamente com meu grande amigo Perry, que voc conheceu esta 
tarde.
Silncio novamente.
Gytha fitou a princesa e viu que ela apertava os olhos escuros.
Havia neles uma expresso estranha, e no apenas de surpresa.
Talvez, Gytha deduziu, uma ameaa disfarada, como um aviso malfico.
Mas logo depois, com voz doce e evidentemente no sincera, Zuleika se 
pronunciou:
- Que surpresa! Grande surpresa mesmo! E, claro, desejo aos dois muita 
felicidade. E espero que voc, Valiant, seja feliz com noiva to 
encantadora!
Nesse instante, Gytha enxergou nela uma impiedosa e implacvel inimiga. 
Perigosa como uma serpente.
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CAPTULO IV

Quando acordou no dia seguinte, Gytha pensava nos acontecimentos da
vspera.
Tudo fora emocionante.
A sala de jantar de Locke Hall tinha sido decorada por Adam, famoso 
arquiteto da poca.
Havia nichos com esttuas de deuses gregos por toda a parte.
E a atmosfera da sala foi to surpreendente para ela como
a conversa.
Gytha teve medo de se sentir um pouco gache e destreinada em maneiras 
sociais, pois vivera sempre no campo. Achou que no teria assunto para 
conversar com lorde Locke e com os elegantes amigos dele.
Mas Perry sentou-se  sua esquerda e comeou imediatamente a falar sobre 
cavalos.
Lorde Locke, do outro lado, tomou parte na conversa.
Cavalos eram a paixo de Gytha. Ela no somente os amava como lera muito 
sobre eles.
Acompanhava todas as corridas pelos jornais.
Conhecia o histrico do turfe, atravs das vrias pocas.
No era difcil obter fonte de informao sobre o tema, porque a 
biblioteca de seu pai tinha sido transferida para a casa do av, e
continha grande nmero de livros referentes  criao de cavalos.
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Havia tambm compndios que descreviam o desenvolvimento dos cavalos para 
carruagem, desde as corridas de bigas dos romanos.
Foi portanto muito fcil para ela conversar acerca desses animais.
Sabia quais as importantes competies vencidas por lorde Locke.
E percebeu que todos os homens presentes naquela reunio se interessavam 
por esse esporte.
Mas as leituras de Gytha no se limitavam a um nico assunto.
Sua me tinha se dedicado muito ao estudo das religies orientais.
O av materno, que Gytha conhecera s quando criana, tinha sido um 
fantico viajante. Visitara vrios pases onde poucos homens do Ocidente 
haviam posto o p.
E deixara um dirio sobre suas aventuras, impresses de viagem e tudo o 
que achara interessante em suas andanas pelo mundo.
Tendo ele uma caligrafia quase ilegvel, Gytha tivera o cuidado de copiar 
as notas em sua fluente e clara escrita. E gostou de fazer isso, pois 
cada detalhe lhe parecia mais cativante que o anterior.
Ela possua tambm grande interesse pelas guerras napolenicas, 
principalmente porque o pai lutara numa delas.
Lera tudo sobre o duque de Wellington e Napoleo Bonaparte.
Por essa razo, teve muito assunto a discutir com seus parceiros 
masculinos  mesa.
Tanto que, at o fim do jantar, no se preocupou com sua aparncia e nem 
se mostrou tmida.
Uma coisa lorde Locke deixara bem clara de incio: como havia poucas 
mulheres presentes, elas deveriam ficar espalhadas  volta toda da mesa.
Pediu  princesa que se sentasse na outra extremidade, oposta  dele.
Os olhos de Zuleika faiscavam de irritao.
Percebeu que lorde Locke a afastava de propsito. Mas no teve outro 
remdio seno satisfazer o pedido do anfitrio.
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De um lado de lorde Locke sentou-se a muito atraente segunda esposa de 
lorde Lieutenant que, sabia-se, tentava desesperadamente dar um herdeiro 
ao marido.
E Gytha, do outro lado.
Era evidente que muitos convidados da vizinhana achassem estranho uma 
pessoa to jovem ocupar o lugar de honra, junto do dono da casa.
Mas Gytha entendia a razo disso. Ele queria impressionar Zuleika quanto 
 importncia do segredo que lhe havia confiado.
Gytha no era to ingnua a ponto de no perceber que a princesa amava 
lorde Locke e o considerava s dela.
E era tambm bastante humilde para concluir que ele apenas a estava 
ajudando, pagando uma dvida de gratido para com a pessoa que lhe 
salvara a vida.
Mas homem algum podia deixar de se sentir cativado pela extica beleza da 
princesa, e Gytha deduziu que lorde Locke, por ser cavalheiro, tomava a 
si a misso de proteg-la,  custa de todo esse incmodo que a situao 
trazia.
"No obstante", Gytha pensava, "por que ser que, sendo to amigo da 
princesa, no lhe contava toda a verdade sobre o noivado? "
Talvez ache interessante no confiar em ningum.
Nem mesmo a princesa deveria saber que havia qualquer coisa de anormal no 
compromisso deles.
Mulher alguma resistiria no passar adiante segredo assim sensacional.
Mulher alguma resistiria no revelar essa histria de lorde Locke estar 
pagando uma dvida de maneira to fora do comum.
com um suspiro de alvio, Gytha chegou  concluso de que ningum saberia 
a verdade antes da morte do av.
E-ela estaria livre, ao menos at o desfecho fatal, de se casar com 
Vincent ou Jonathan.
Mas a, outra ideia lhe passou pela mente.
E se os primos a perseguissem depois, por causa de sua fortuna?
At l, faria outros planos.
Quando os homens ficaram sozinhos na sala de jantar, para o habitual 
vinho do porto, e as mulheres se retiraram para o
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salo, Gytha ficou bem consciente da presena de Zuleika, que foi logo 
falar com ela.
A princesa a tinha ignorado completamente at ento.
Havia na sala duas mulheres muito bonitas que foram apresentadas a Gytha 
como lady Compton e condessa de Blackstone.
Elas a examinaram da cabea aos ps, com olhar de desprezo e a 
consideraram, obviamente, uma caipirona sem maiores consequncias.
Depois das apresentaes, no fizeram esforo algum para conversar com 
ela.
Mas os moradores da redondeza demonstraram grande espanto ao ver Gytha.
Aps a morte da me, ela vivera isolada em Sullivan Hall, apenas na 
companhia do av.
Era, portanto, quase estranha para eles.
Lady Wakefield, um pouco mais velha que as outras senhoras, observou com 
bastante franqueza:
- Nunca pensei que, depois de toda a animosidade existente entre o velho
lorde Locke e seu av, eu pudesse ver voc nesta casa, Gytha.
- Eu tambm me surpreendo de estar aqui - Gytha replicou -, mas 
felizmente vov admitiu ser ridculo continuar essa guerra por causa de 
Monk's Wood.
- Fico contente em saber disso, Gytha, mas, se a briga terminou, qual vai 
ser o tema de nossas conversas no condado, daqui por diante?
Era, de fato, o assunto mais empolgante do local, Gytha sabia!
E ela pde ouvir lady Wakefield, dali a poucos minutos, contando a alguns 
convidados que os dois velhos proprietrios tinham sido inimigos por 
anos, e repetia como todo mundo na aldeia se divertia com a briga dos 
dois.
Gytha mal acabara de falar com lady Wakefield quando a princesa se 
aproximou, no conseguindo mais disfarar o dio que lhe ia na alma.
com os lbios vermelhos crispados, perguntou:
- De onde veio, miss Sullivan? Por que nunca ouvi comentrios sobre sua 
pessoa antes?
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- Moro na propriedade de meu av... que confina com a de lorde Locke.
- E voc acha que tem condies de ser esposa de homem to atraente como 
sua senhoria?
Zuleika quase cuspiu essas palavras na cara de Gytha que, por sua vez, 
sentiu o corao disparar de tanto medo. Mas, mesmo assim, respondeu:
- Como deve saber, princesa, tudo ainda  segredo. Baixou a voz ao falar, 
e ps em evidncia que sua interlocutora havia sido imprudente.
Mas pareceu que ningum ouviu esse dilogo.
A princesa, ento, chegou-se mais perto dela e a ameaou:
- Se pensa que vai roub-lo de mim, est muito enganada! Ele  meu, voc 
entende? Meu! E se tentar nos separar, se arrepender, e muito, por sua 
pretenso!
Essas frases continham indisfarcada fria.
Foram pronunciadas de tal maneira que fizeram a voz da princesa soar 
incrivelmente assustadora.
Gytha ficou em pnico.
Depois concluiu que precisava reagir. No devia ter medo daquela mulher 
que se comportava com tanta indelicadeza.
Levantando a cabea, deixou-a em p sozinha no meio do salo, e foi ao 
encontro de lady Wakefield, no outro extremo do recinto.
A princesa vibrava de raiva.
Era como se Gytha a tivesse alvejado com um tiro de pistola, e pelas 
costas.
- Ao v-la aqui esta noite - lady Wakefield declarou -, tive vergonha de 
no a ter convidado para ir  minha casa depois da morte de sua me. Mas, 
para dizer a verdade, tive um pouco de receio de seu av, pois sei que 
ele no  nada socivel.
- Vov est muito doente e, alm disso, eu guardei luto at pouco tempo 
atrs.
- Mas agora que j est saindo, precisa ir almoar comigo um dia desses. 
Daqui a duas semanas, vou receber alguns hspedes, bem jovens, por isso 
espero voc em casa. Podem danar de vez em quando.
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Fez uma pausa e prosseguiu:
- Talvez convena seu av a acompanhar voc.
Seria grande honra para lady Wakefield receber a visita de sir Robert.
E depois, no podendo conter sua curiosidade, perguntou a Gytha:
- Voc conhece lorde Locke h muito tempo? Se o conhece, deve ter sido 
difcil se encontrarem considerando-se a guerra entre as duas famlias 
que durou tantos anos!
Gytha esperava por essa pergunta. Respondeu prontamente:
- Ambos temos grande amor por cavalos.
- Ah, agora entendo! Deve t-lo encontrado nas caadas e, quem pode 
deixar de apreciar os cavalos de lorde Locke?
Gytha conseguiu, com certa habilidade, evitar perguntas da parte de 
outras senhoras, at o momento em que os cavalheiros se juntaram a elas.
Lady Lieutenant, por exemplo, queria muito falar com ela. Achara lorde 
Locke sedutor, e desejava saber qual o tipo de relacionamento existente 
entre ele e Gytha.
Mas Gytha estava o tempo todo consciente do dio da princesa, pois era 
muito sensvel a vibraes vindas de Outras pessoas, e podia sentir os 
olhos de Zuleika em cima dela.
Eram como carves incandescentes queimando-lhe a carne.
Ento, achou melhor se retirar.
Lorde Locke acompanhou-a at a porta, falando numa voz que s ela podia 
ouvir:
- Voc foi maravilhosa! Ainda vou ter hspedes em casa amanh, mas darei 
um jeito de visit-la  tarde.
Gytha sorriu.
No caminho de volta, pensou em como ele tinha sido amvel e generoso!
"Que delcia ter concordado com nosso noivado! Foi papai quem ps essa 
ideia em minha cabea, e quem persuadiu lorde Locke a aceitar tudo. 
Agora, s falta convencer Vincent e Jonathan de que  intil alimentar 
esperanas de obter o dinheiro de vov por intermdio de um casamento. "
No ser misso to fcil como pode parecer  primeira vista.
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Mas, na cama, pensou apenas no encantador anfitrio daquela noite!
Podia v-lo montado no magnfico garanho preto, saltando os obstculos.
S queria agora agradecer-lhe mais uma vez por t-la salvado de um 
casamento horroroso!
Ao se levantar na manh seguinte, desejou que lorde Locke estivesse com 
ela.
Tinha medo de enfrentar Vincent e Jonathan, e de dizer a eles que estava 
noiva do nobre vizinho.
Desceu para tomar caf e achou a casa lgubre e silenciosa, especialmente 
depois do falatrio e risos de Locke Hall.
Painis pesados de carvalho cobriam todas as paredes.
Enormes e feios mveis de mogno, retratos de antepassados, davam ao 
ambiente um aspecto fnebre.
Reposteiros de brocado impediam que a luz do sol penetrasse pelas 
janelas.
Em contraste, as salas de Locke Hall brilhavam  noite como se fosse dia.
No apenas por causa da iluminao dos lustres de cristal, mas tambm por 
terem as paredes brancas como neve.
Os tetos pintados por famosos artistas italianos eram muito diferentes de 
quaisquer outros que ela vira antes.
Enfim, tudo a respeito de lorde Locke apresentava-se fora do comum.
Nesse exato momento, Gytha viu o primo Vincent entrando pela porta da 
frente.
Veio rpido, ela pensou, ansioso por obedecer a intimao do tio Robert.
" com certeza passou a noite com um amigo, ou pernoitou na hospedaria 
local. "
Estava vestido da maneira habitual, com excessivo apuro.
com um palet da ltima moda, colarinho pontudo e quase cobrindo todo o 
pescoo, parecia um verdadeiro janota!
Gytha fitou os lbios finos, o nariz avantajado, os olhos pequenos
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e muito juntos do primo, e teve um sentimento de revolta.
- bom dia, Gytha - ele a cumprimentou naquele tom de voz arrogante, alis 
sempre presente quando se dirigia a ela. - Penso que tio Robert ainda no 
tenha descido, no  mesmo?
- No, ainda no,  muito cedo para ele. Na verdade, espervamos voc bem 
mais tarde.
- Quero falar a ss com voc.
Ela sabia que o primo tencionava propor-lhe casamento.
- Estou um pouco ocupada agora, Vincent.  melhor voc falar com vov 
assim que ele acordar.
- Mas eu disse que desejo falar com voc sozinha! Venha comigo para a 
sala!
Gytha tentava inventar uma desculpa para no ir. Porm, sendo muito mais 
jovem que os primos, acostumara-se a obedec-los.
Enquanto pensava num pretexto a fim de se esquivar, Vincent pegou-a pelo 
brao e a conduziu  austera sala de visitas, que para Gytha assemelhava-
se a um verdadeiro velrio!
Ela apressou-se em dizer:
- Quero que vov mesmo informe voc sobre as novidades.
- Novidades? Que novidades?
Vincent caminhou at a lareira majestosamente, certo de que Gytha o 
achava um verdadeiro tipo de beleza masculina.
Os cales de cor champanhe ajustavam-se como pele a suas pernas, e as 
botas de couro alemo eram guarnecidas com duas tranas douradas.
Ele a examinava como um sulto inspecionando seu harm.
Gytha podia ler-lhe os pensamentos e percebia que o primo no a 
considerava a mulher ideal para ele.
Contudo, a fortuna que herdaria do av na certa cobriria uma multido de 
defeitos.
- Prefiro que vov lhe conte tudo.
Mas sua recusa no soou muito convincente.
- O que pode tio Robert ter para me contar que voc no Possa fazer 
antes? Na realidade, prefiro at estar preparado. Pare de agir assim to 
misteriosamente e me conte o que aconteceu
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depois de minha ltima visita a esta casa, embora talvez no seja
de grande importncia.
-  importante s para mim.
- Ento, o que ?
Gytha respirou fundo antes de responder.
- Estou... noiva de lorde Locke!
Por momentos Vincent apenas a encarou, perplexo. Depois, explodiu:
- No acredito! Tio Robert jamais faria uma aliana com os Locke. Temos 
vivido em guerra com eles por vinte e cinco anos!
- Vov concordou com nosso compromisso. Contudo... s ser anunciado 
depois que ele conhecer lorde Locke melhor.
- Nunca ouvi nada to ultrajante! Como voc ousa fazer amizade com uma 
famlia que nos insultou e deliberadamente roubou nossas matas?
- Lorde Locke desistiu de seus direitos sobre a floresta... e prometeu a 
vov que a riscaria de todos os mapas de sua propriedade.
- Nunca devia ter sido includa nesses mapas, em primeiro lugar, mas tudo 
isso  um absurdo! Tio Robert deve estar caduco se concordou de fato com 
esse casamento ridculo. E vou lutar contra, com todas as minhas foras.
- Por que vai agir assim? - Gytha indagou com fingida ingenuidade.
- Porque desejo me casar com voc! Precisa de algum, Gytha, que a 
proteja, pois no tem mais ningum no mundo e, como minha esposa, ter 
proteo e, o mais importante de tudo, meu nome!
- Que acontece tambm  o meu! - Gytha ressaltou. E, embora sendo grande 
generosidade sua me pedir em casamento, Vincent, voc chegou... tarde 
demais. J me comprometi com lorde Locke.
Gytha sentia-se cada vez mais valente  medida que falava. Mas, no 
estava preparada para enfrentar a fria de Vincent quando ele gritou:
- Voc no vai se casar com lorde Locke! Eu probo! Est me ouvindo? Eu 
probo!
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A voz dele ecoava por toda a sala.
Parecia to assustador que Gytha, temendo ser agredida fisicamente, deu 
alguns passos para trs.
Nesse instante, sir Robert entrou em sua cadeira de rodas. Dobson 
empurrou-a at bem junto de Vincent.
- Deixe-nos sozinhos, Dobson - sir Robert ordenou.
O valete saiu devagar, como se lamentasse perder um espetculo promissor.
Sir Robert olhou para Gytha, em seguida para Vincent, e observou, 
rspido:
- Que significa esse barulho todo? Por que est gritando com Gytha?
- Eu estava gritando - Vincent respondeu em tom bem mais amvel -, porque 
fiquei surpreendido, tio Robert, para no dizer perplexo, ao saber que o 
senhor dera permisso a Gytha de se casar com um homem que sempre 
considerei um inimigo.
- O que voc considera ou no considera no vem ao caso
- sir Robert revidou. - Locke pode ser filho do pai dele, mas foi bom 
soldado e tem muitas medalhas que o comprovam.
Gytha entendeu logo o motivo dessa aluso. O av sempre se ressentira do 
fato de nem Vincent e nem Jonathan ter tomado parte ativa na guerra.
- No posso entender - Vincent protestou - por que a qualidade de bom 
soldado d a ele o direito de se casar com Gytha. Alm do mais, sempre 
achei que o senhor queria que ela se casasse comigo ou com Jonathan.
- Bem, mudei de ideia. E, se Gytha se casar mesmo com Locke, voc ter 
que procurar outra herdeira para pagar suas extravagncias.
- No sei por que deva fazer isso! - Vincent respondeu irritado, - Vou me 
casar com Gytha, no importa o que o senhor diga agora, pois toda a vida 
me fez acreditar que esse casamento estava de acordo com seus planos.
- Deixo meu dinheiro a quem eu bem entender - sir Robert declarou 
furiosamente. - Eu o consegui sem auxlio algum desse bando de parentes 
sempre prontos a me criticarem. Por que sua contribuio h de vir s na 
hora de gast-lo?
- Acho muito injusto... - Vincent comeou a dizer.
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Jonathan acabava de chegar e interrompeu o dilogo.
Tinha um aspecto, de acordo com a opinio de Gytha, mais ridculo que 
nunca.
Um sorriso de adulao nos lbios o fazia se assemelhar a um gato 
satisfeito por ter comido creme em quantidade. Essa foi, ao menos, a 
impresso que deu  prima.
Ele tentava se vestir com elegncia, como o irmo.
Mas era baixo e gordo; nada ia bem nele.
Alm disso, a viagem longa concorrera para lhe dar aquela aparncia 
desleixada.
As botas estavam sujas; por sinal, nunca se apresentavam to lustrosas 
como as dos outros cavalheiros.
As mos de Jonathan eram sempre no apenas midas e pegajosas, mas
frequentemente mal lavadas.
- bom dia, tio Robert! - ele falou com voz melflua, como sempre, quando
se dirigia ao velho tio. - Que prazer v-lo outra vez, e com to boa 
sade!
- Estou doente como os diabos! - sir Robert replicou. E voc sabe muito 
bem disso.
- bom dia, Gytha! - Jonathan disse. - Que linda voc est! Fresca como as 
flores da primavera, na linguagem dos poetas!
- Pare com essa conversa mole! - Vincent observou. Oua o que aconteceu e 
me diga se tambm no acha que tio Robert est nos tratando com pouco 
caso!
Jonathan lanou um olhar ao tio e indagou, no mais com a voz doce de 
antes:
- Que pode ter sucedido nesta deliciosa manso, onde sempre me sinto to 
bem como em casa?
- Aproveite disso enquanto  tempo - Vincent aconselhou. - Gytha se 
considera noiva daquele intruso do Locke, com quem Sullivan nenhum falou 
por mais de vinte e cinco anos.
- Lorde Locke? - Jonathan no podia crer.
- E que outro Locke voc conhece? Convena tio Robert que isso  um 
absurdo e que ns no permitiremos que tal coisa acontea.
- Quer insinuar que estou senil? - sir Robert inquiriu com voz de trovo, 
- ". Voc" no permite? "Voc" que no
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fez nada na vida desde que saiu da escola, alm de mendigar dinheiro, 
primeiro de seu pai, e depois de mim! No pense que no sei o que os fez 
vir com frequncia aqui nestes ltimos tempos! Foi a suposio de que 
fizesse de Gytha minha herdeira, em lugar de vocs!
- Sempre soube que o senhor quis que um de ns dois se casasse com Gytha 
- Vincente contestou -, a fim de conservar o dinheiro na famlia e 
garantir a propriedade para um Sullivan.
- Sim, isso  o que pensei tambm - Jonathan falou. Achei que um de ns 
dois poderia se casar com a querida Gytha, e esperei que a graciosa prima 
me escolhesse.
Lanou um olhar a ela, o que a fez estremecer. Instintivamente, foi para 
o lado do av, como para pedir proteo.
- Bem, vocs dois apostaram no cavalo errado! - sir Robert exclamou. -
Gytha pretende se casar com lorde Locke e, embora no aprecie muito o
"haras" de onde ele vem, ao menos no est correndo atrs de meu dinheiro
como vocs.
- Fala seriamente, tio Robert? - Vincent gritou. - Vai consentir nesse 
casamento, fazendo de Gytha uma Locke, em vez de uma Sullivan?  possvel 
que no tencione dar alguma coisa para ns?
- Dar? Vocs tm muito de que viver. Seu pai lhes deixou tudo o que 
possua e, se no acham suficiente, o problema no  meu!
- Mas, tio Robert, vamos ficar na misria! - Jonathan gemeu. - Como pode 
aguentar a ideia de que seus sobrinhos carnais vivam na pobreza, tendo 
que depender da generosidade de amigos?
- E que diferena faz depender deles ou de mim? Percebi muito bem os
esforos de vocs para me adularem, insistindo que "sangue  mais
consistente que gua".
Sir Robert esperou por uma resposta. Como no viesse, ele continuou:
- No sou bobo, e vocs dois no passam de caadores de dinheiro. Vo 
procurar uma fortuna noutro lugar. Gytha herdar tudo o que tenho e, se 
ela permitir que morem na residncia da famlia, se dem por muito 
satisfeitos.
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- Mas, no temos dinheiro para viver! - Jonathan falou com voz chorosa.
- Procurem dinheiro! Faam dinheiro! Mexam-se um pouco, para variar! - 
sir Robert gritou. - Como acham que consegui minha fortuna? Usando a 
cabea, e no dependendo de nteus parentes, dbeis mentais como vocs.
A voz do velho era tal qual um trovo quando repetiu:
- Bobalhes, dbeis mentais, sem um pingo de crebro, como vocs dois! 
No quero ver meu dinheiro, "meu dinheiro", jogado fora. Ao menos Locke 
entende de cavalos. Mas no confiaria em vocs nem para comprar uma mula.
A face de sir Robert tornou-se rubra enquanto ele esbravejava com os 
sobrinhos.
De repente, tombou a cabea.
Parecia respirar com dificuldade.
J havia acontecido isso antes e o mdico tinha deixado um remdio 
especial para o caso.
Gytha correu a fim de chamar Dobson que, como de hbito, escutava com o 
ouvido no buraco da fechadura, atrs da porta.
- As gotas de vov, depressa! - ela disse.
O valete entrou na sala, tirou do bolso um pequeno vidro e foi buscar um 
copo na bandeja de bebidas ao lado da lareira.
Encheu-o pela metade e colocou algumas gotas; depois, encostou o copo nos 
lbios de seu patro, entornando o lquido vagarosamente.
O silncio era absoluto; todos aguardavam que as gotas fizessem efeito.
Mas sir Robert permanecia de olhos fechados.
Ento, Dobson encaminhou-o para a porta, dizendo a Vincent:
- O senhor est matando sir Robert, isso  o que o senhor est fazendo!
E levou o patro para fora da sala.
Os trs primos se entreolharam e Vincent falou em primeiro lugar:
- Agora perdemos tudo!
- No h algum meio de mudarmos o testamento? - Jonathan indagou.
- Duvido - Vincent replicou -, mas podemos contest-lo,
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uma vez que tio Robert esteja morto. No tenha nenhuma dvida, Gytha, de 
que se o persuadiu a deixar tudo para voc, vamos brigar na justia. Pode 
ter certeza disso!
Ela considerou os primos sem corao e monstruosos.
Depois de alguns minutos, falou calmamente:
- Lorde Locke cuidar de meus interesses.
- Olhe aqui, menina - Vincent chamou-lhe a ateno -, oua bem o que eu 
digo...
- No quero ouvir nada - Gytha protestou. - Ambos me do nojo pelo modo 
como se comportam. Sempre soube que eram desprezveis. Vieram visitar 
vov s porque queriam o dinheiro dele. Agora confessaram tudo, e espero 
nunca mais pr os olhos em vocs dois.
Dito isso, saiu da sala, no sem tempo de ouvir Jonathan dizer:
- Viu o que voc fez, Vincent? Temos que convenc-la a mudar de ideia, 
custe o que custar!
"Nunca vo conseguir", Gytha pensou.
E subiu as escadas correndo, para ver como o av estava passando.
Soube mais tarde que Vincent e Jonathan ficariam para o almoo.
Pediu ento que uma bandeja fosse levada a sua saleta, ao lado do quarto.
Comeu sozinha.
E, para no ter mais discusses com os primos, foi dar um passeio.
Esperava se encontrar com lorde Locke a caminho de sua casa, para visit-
la, conforme prometera.
Olhava por entre as rvores a fim de descobri-lo.
Finalmente enxergou-o  distncia, e seu corao disparou.
 medida que se aproximava, podia observar como se vestia com elegncia.
Cavalgava o mesmo corcel preto que vencera a corrida.
Homem nenhum poderia ser mais atraente e montar com mais maestria que 
ele.
"Apreciar lorde Locke teria sido enorme prazer para papai", Gytha pensou.
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Ele a avistou de longe e diminuiu a marcha. Parou logo depois.
- Boa tarde, Gytha! Veio se encontrar comigo?
- Vim para lhe dizer... que meus primos... esto em casa. O modo como 
Gytha falou lhe deu certa preocupao.
- E que aconteceu?
- Eu disse a eles que estava noiva. Ento vov entrou na sala e houve uma 
terrvel discusso. Vov se irritou tanto que teve uma espcie de 
crise... e precisou ser levado...  cama. Ento, Vincent e Jonathan me 
amearam dizendo que se ele deixar tudo para mim, vo impugnar o 
testamento.
-  o que eu esperava! - lorde Locke exclamou. Ele apeou e permaneceu ao 
lado de Gytha.
Notou que ela estava muito plida, com uma expresso no olhar ainda mais 
assustada que na vspera.
- Que quer que eu faa? - ele perguntou.
- Seria pedir demais que se encontre com eles? Penso que, se meus primos 
virem voc... vo concluir que lhes falei a verdade sobre nosso 
compromisso. Podem deduzir tambm que no h mais esperana para os dois.
- Duvido que o encontro deles comigo os faa mudar de ideia sobre o 
testamento. Mas vou fazer tudo o que voc quiser.
- Obrigada - Gytha falou, comovida.
Os dois andaram devagar ao longo do parque.
Lorde Locke conduzia Hrcules pela rdea, at que um cavalario os viu.
Correu a fim de segurar a montaria.
Enquanto subiam as escadas para entrar na casa, lorde Locke percebeu que 
Gytha estava realmente assustada.
Teve pena dela, por ter de sofrer tanta presso sendo to jovem e to 
sozinha.
- No h - ele indagou de Gytha - alguma parenta sua, ou senhora de meia-
idade, que possa lhe servir de companhia.
- Duvido que algum aguente vov por muito tempo. Ele  pessoa bem 
difcil no que diz respeito a estranhos dentro de casa.
Assim falando, ela abriu a porta da sala de visitas. Como esperava, 
Vincent e Jonathan sentavam-se em frente  lareira.
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Discutiam sobre a situao e contavam ver sir Robert mais uma vez para 
convenc-lo a mudar de ideia.
Mas Gytha sabia que Dobson no admitiria ningum junto de seu amo.
Insistiria para que ele descansasse, sem ser perturbado.
Ela tentou demonstrar calma e entrou na sala com lorde Locke ao lado.
com relutncia visvel, Vincent e o irmo se levantaram.
- Achei, primo Vincent - Gytha declarou -, que gostaria de conhecer meu 
noivo, lorde Locke.
Furioso, Vincent respondeu:
- Nunca pensei encontrar vossa senhoria nesta casa.
- Eu tambm me surpreendo de estar aqui - lorde Locke replicou. - Mas 
somos bastante inteligentes para perceber que essa briga ridcula deve 
terminar e, o que poderia ser melhor do que Unir nossas famlias por um 
casamento?
Ele se divertia com a irritao de Vincent. Jonathan parecia prestes a 
cair em pranto.
- Tenho a impresso - Vincent ponderou -, de que vossa senhoria deve ter 
induzido minha prima a esse noivado, mesmo considerando que meu tio 
sempre tencionou cas-la comigo ou com meu irmo.
- Entendo seus sentimentos - lorde Locke admitiu -, mas como Gytha deu 
preferncia a mim, espero que ambos tenham suficiente esprito esportivo 
para nos desejar felicidades e para no demonstrar nenhum ressentimento 
por isso.
- Lindas palavras! - Vincent zombou. - O fato  que o senhor, ou melhor, 
o senhor e Gytha esto roubando nossa herana,  qual temos direito como 
Sullivan que somos.
- Tendo conhecido seu tio, me convenci de que ele  perfeitamente capaz 
de decidir a quem beneficiar com seu testamento. Gytha no o influenciou 
da maneira como est insinuando.
- Tenho opinio formada sobre o assunto - Vincent afirmou -, e estou 
convencido de que encontrarei testemunhas para provar que no somente meu 
tio est com as faculdades mentais abaladas, como tambm que foi forado 
a fazer um testamento totalmente em favor de sua neta.
73
- Tudo vai depender da deciso do juiz. Contratarei advogados competentes 
para representar minha noiva e para garantir que ela no seja privada de 
nada a que tem direito.
Depois dirigiu-se a Gytha.
- Acho, querida, que  intil discutir com esses cavalheiros. Deixe seus 
problemas em minhas mos. No quero que se preocupe com coisa alguma.
- Muito... obrigada - Gytha respondeu.
A expresso de seu olhar foi mais eloquente que as palavras, e lorde 
Locke retirou-a da sala.
Enquanto se dirigiam  biblioteca, ela agradeceu mais uma vez:
- Muito obrigada! Como pode ser to maravilhoso? Estou certa de que 
Vincent e Jonathan agora pensaro duas vezes antes de aborrecer vov, ou 
antes de iniciar um processo contra mim.
- De qualquer forma, no podem fazer nada a menos que ele esteja morto.
Gytha de repente se deu conta de que, uma vez falecido sir Robert, o 
compromisso deles terminaria.
Lorde Locke no estaria mais l para proteg-la.
Mesmo sem ler os pensamentos de Gytha, ele a consolou:
- No se preocupe. Seu primo Vincent vai concluir que ter poucas 
possibilidades de vencer um longo processo que custar muito dinheiro, 
que ele, pelo visto, no possui. Em seu prprio interesse, ser mais 
vantajoso para ele agradar voc, a fim de conseguir alguma mesada. E, se 
a fortuna de seu av for grande como se supe, no vai ser difcil dar 
qualquer coisa aos dois.
- Sim, claro - Gytha concordou -, e gostaria muito de ajud-los. Mas 
suponho que eles queiram tudo o que possuo, no apenas uma pequena 
contribuio.
- Porm isso  impossvel! - lorde Locke protestou com firmeza.
E olhou para Gytha, to pequena e indefesa!
Mais uma vez comparou os cabelos dela aos raios de sol.
- E eu insisto, Gytha - ele prosseguiu -, que convide algum para morar 
aqui. Afinal, seu av est muito doente, e
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voc no pode fazer companhia a ele vinte e quatro horas por dia. Alm do 
mais, ter com quem conversar.
- Gostaria disso, mas eu irritaria vov muito se contratasse uma pessoa 
sem seu consentimento. E tambm, todo mundo acha esta casa muito triste.
- E por quanto tempo ainda voc vai aguentar essa tristeza? Gytha sorriu.
-  impossvel para mim sair daqui. No tenho para onde ir e nem 
dinheiro.
- No posso crer- que haja no mundo pessoa com tantas dificuldades ao 
mesmo tempo como voc. E penso ser inadmissvel convid-la para ficar em 
minha casa alguns dias, no ?
Os olhos de Gytha se iluminaram, mas ela apenas disse:
- Adoraria ir l mas acho que vou incomodar sua amiga...
- Lorde Locke entendeu logo a que amiga ela se referia. Antes de ele 
responder, Gytha acrescentou: - E vov jamais concordaria. Mas talvez 
voc possa me convidar s vezes para almoar ou jantar. Seria timo!
-  bem-vinda a qualquer hora e, como meus hspedes vo embora amanh 
cedo, sugiro que aparea amanh mesmo para almoar, e tambm  noite.
- Obrigada. Voc  muito amvel.
- Preciso ir agora, Gytha. No se deixe influenciar muito por seus 
primos.
- Vou tentar no ter contato com eles. J almocei sozinha hoje e ficarei 
em meu quarto enquanto os dois estiverem aqui. Espero que saiam antes do 
jantar.
- Ento, conto com voc amanh na hora do almoo. Cuide-se bem e, se 
precisar de mim, mande um lacaio me chamar que virei imediatamente.
- Obrigada... muito obrigada.
Lorde Locke sabia que esse agradecimento vinha do fundo do corao.
Gytha o levou at a porta.J montado, ele tirou o chapu para dizer-lhe
adeus antes de partir. Ela achou esse gesto muito corts.
Permaneceu na porta at que lorde Locke desaparecesse e
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ele, olhando para trs, viu como Gytha parecia frgil, insegura e 
pequena.
Era como se aquela casa enorme e feia a sufocasse, ameaando esmag-la 
com seu peso.
Depois concluiu que estava dando asas  prpria imaginao.
Contudo, se disps a fazer o melhor que pudesse para pagar sua dvida com 
o pai de Gytha.
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CAPTULO V

Lorde Locke passou uma noite muito agitada. Teve grande dificuldade para
dormir.
Assim que chegou da casa de Gytha, comeou a se preocupar com Zuleika.
Ela faria uma cena mais cedo ou mais tarde.
Lorde Locke procurava por todos os meios evitar isso, mas lhe parecia 
quase impossvel.
s duas horas da madrugada, todos os convidados foram finalmente para a 
cama.
Jogaram cartas at essa hora, e jogo com apostas bem altas.
Lorde Locke, antes de se recolher, foi ao quarto de Perry.
- Como est a situao agora? - o amigo indagou.
Ele era a nica pessoa a saber de toda a verdade sobre o suposto noivado 
de Gytha.
Depois do jantar da noite anterior, Perry exaltara as qualidades da 
jovem, com muita sinceridade.
- Ela  linda e inteligente, Valiant, e ainda que necessite de roupas 
adequadas para competir com as beldades de St. James , na minha opinio, 
uma criatura excepcional.
Lorde Locke mal o ouvia. Estava preocupado com a princesa, e Perry 
percebeu; por isso, comentou:
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- Acredito que no haja nada a se fazer com Zuleika, apenas espero que o 
"amanh" chegue depressa.
- Ela tentou me abordar hoje durante o dia todo, e desconfio que agora 
vai ser o momento fatal.
- Tranque a porta de seu quatro - Perry caoou.
-  contra meus princpios agir como uma empregadinha perseguida por seu 
devasso patro - lorde Locke alegou, bem irritado.
Perry riu e lorde Locke continuou:
- Penso no ter outra alternativa seno escutar o que ela tem a me dizer.
- Eu aconselho voc a no fazer isso. Sabe como so essas orientais,
muito cansativas quando magoadas.
Lorde Locke observou o amigo enquanto tirava a gravata e reconheceu que
ele dizia a verdade.
- Tenho o pressentimento de que Zuleika vai ser um pouco difcil - ele se 
expressou como se falasse consigo mesmo.
- Um pouco? Voc est brincando! Muito difcil, isso  o que ela vai ser, 
Valiant. Desde que a vi pela primeira vez, achei que traria problemas.
Lorde Locke suspirou.
- Ela se agarrou a mim, Perry, e no quer me largar.
- Zuleika  como uma hera grudada num muro, se voc arranca um pedao, o 
outro fica.
- Voc no parece querer me ajudar - lorde Locke queixou-se.
- Se quer meu conselho, v dormir em outro quarto. S Deus sabe quantos 
h nesta casa.
- Essa  a primeira coisa inteligente que voc falou at agora!
Lorde Locke levantou-se e se despediu do amigo:
- Boa noite, Perry. Venha cavalgar comigo amanh antes do caf, e depois 
me ajude a despachar os hspedes. No quero que Zuleika seja a ltima.
- Isso  problema seu, meu velho, no meu! - Perry comentou de maneira 
jovial.
Lorde Locke foi para seu quarto mas, antes de chamar o valete, teve uma 
ideia.
Tirou um lindo buque de crisntemos de um vaso em cima
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da cmoda e enfiou as flores por dentro da chamin da lareira,
empurrando-as para cima o mais possvel.
Em seguida, ps duas achas de lenha no fogo.
Alguns minutos aps, a fumaa, que no pde escapar pela chamin devido 
ao bloqueio, comeou a invadir o quarto.
Nesse momento, tocou a sineta para chamar o valete.
Walters, um atltico empregado que o servira no regimento, veio depressa 
atender ao chamado.
Abriu a porta e se surpreendeu com o que viu.
- Quanta fumaa, milorde! - ele exclamou. - E o limpador de chamin 
esteve aqui h dez dias s. Que tragdia, uma verdadeira tragdia!
- Concordo com voc Walters, e como no pretendo morrer sufocado,  
melhor que transfira minhas roupas para o quarto Marlborough. Imagino que 
a cama esteja feita, no ?
- Claro, milorde. Os aposentos deste andar esto sempre em ordem para o 
caso de vossa senhoria receber hspedes inesperados.
- Muito bem. Ento,  onde vou passar esta noite. E saiu depressa para o 
corredor.
Teve esperana de que Zuleika, cujo quarto ficava um pouco adiante, no o 
visse.
Mas, depois de deitado, por estranho que parea, no pensou mais no 
problema da princesa, como seria de se esperar.
E sim no que fazer com Gytha.
Ele podia entender muito bem a averso dela por Vincent, um janota da 
pior qualidade.
Jonathan, ele pensou, era igualmente desprezvel.
"Preciso fazer alguma coisa. "
Contudo, ainda no sabia o qu.
Por isso teve dificuldade em dormir, se virando na cama o tempo todo, 
muito agitado.
Admitia a desagradvel possibilidade de os irmos Sullivan abrirem um
processo contra Gytha, aps a morte do av.
E, embora tentasse evit-lo, ele estaria envolvido no caso.
"Algum tem que cuidar dela. "
Da, lembrou-se de como o pai de Gytha fora bondoso e compreensivo.
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Tinha sido um verdadeiro pai de todos os jovens oficiais do batalho, 
quando eles tiveram o batismo de fogo na Frana.
Concluiu ento que devia ter procurado Gytha e a me aps o trmino da
guerra.
Tentava encontrar uma desculpa para sua negligncia, pois primeiro fizera 
parte das tropas de ocupao, e depois havia permanecido em Londres por 
algum tempo.
S quando voltou para a casa de campo,  que se deu conta da velha briga 
de sua famlia com os Sullivan.
Se o coronel Sullivan estivesse vivo, seria agora o herdeiro de sir 
Robert.
Livraria Gytha das dificuldades que com certeza a cercaro.
com enorme fortuna, a jovem herdeira poder atrair os piores tipos de 
pretendentes.
Mas nenhum seria mais repugnante que qualquer dos dois primos!
"E o pior  que Gytha jamais conseguir se defender deles", lorde Locke 
refletia. "Como vai enfrentar os problemas que inevitavelmente surgiro? 
E sozinha? "
No era apenas rica, mas tambm muito bonita.
Pensava na beleza da amvel vizinha quando enfim adormeceu.
Ao despertar de manh, teve o estranho pressentimento de que Gytha 
necessitava dele.
Porm julgou ser apenas imaginao.
Depois do passeio combinado com Perry, tomou seu breakfast antes que os 
outros hspedes descessem.
- Adorei cada minuto passado aqui, Valiant - o primeiro a aparecer disse. 
- Espero ser convidado mais vezes.
Falou como se achasse um outro convite pouco provvel. Lorde Locke no 
teve remdio seno responder:
- Naturalmente. Talvez estejamos juntos ainda antes do Natal.
Quando todos terminaram de tomar caf, saram da sala de jantar.
Bates foi ao lado de lorde Locke e sussurrou:
- Sua alteza deseja ver vossa senhoria imediatamente.
- Onde? - lorde Locke perguntou.
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- Nos aposentos dela.
- Informe sua alteza que estou ocupado com a sada dos hspedes.  
impossvel satisfazer-lhe o desejo agora. Fez uma pausa e continuou:
- Torne bem claro, Bates, que a carruagem que vai lev-la a Londres foi 
pedida para as onze horas.
Bates dirigiu-se ao andar superior e lorde Locke  biblioteca.
Perry e mais dois amigos estavam l, conversando sobre cavalos, como no 
podia deixar de ser.
Lorde Locke tomou parte na discusso at a porta se abrir.
Zuleika, linda e radiosa como sempre, com um chapu de plumas vermelhas, 
entrou na sala.
Quando os cavalheiros se levantaram para receb-la, ela declarou:
- Preciso falar com voc, Valiant.
Antes que lorde Locke pudesse responder, ela presenteou Perry e os outros 
homens com o mais cativante dos sorrisos, dizendo:
- Meus queridos amigos vo entender, estou certa, que por ter algo de 
grande importncia a comunicar ao nosso maravilhoso anfitrio, preciso 
ficar a ss com ele. O assunto  confidencial, por isso peo que se 
retirem.
No havia nada para os trs homens fazerem alm de concordar.
Perry lanou a lorde Locke um olhar significativo enquanto saa da sala.
Assim que a porta se fechou, Zuleika correu para lorde Locke jogando-se 
de encontro a ele.
- Como pode ser to cruel - ela perguntou -, to malvado com uma pessoa 
que o ama tanto? Oh, Valiant, eu adoro voc!
Lorde Locke no ps os braos em volta dela. Meramente respondeu:
- Acho, Zuleika, que somos ambos adultos e sensatos para perceber que 
aquilo que se conhece como "chama da paixo", no  mais to ardente 
entre ns, como no passado.
Ele falava com bastante sinceridade, e resolveu prosseguir: - A nica 
coisa que posso lhe dizer  que sou grato pela
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felicidade que voc me proporcionou e, quando voltar a Londres, lhe
enviarei uma lembrana para expressar minha gratido.
Zuleika nem se moveu.
Mas lorde Locke sentiu que o corpo dela se retesava.
- Est tentando me jogar de lado? Quer me condenar a uma vida sem
esperanas, que vai me fazer muito infeliz?
- Sei que nada disso acontecer com voc. Zuleika fitou-o suplicante
enquanto dizia:
- Esperei-o ontem  noite.
- Eu estava muito cansado.
- Nunca vi voc cansado! Prefere mesmo aquela garota de rosto descorado a
mim? - Depois, mudando de tom, ela acrescentou ferozmente: - Como pode
ser to bobo a ponto de pensar que vai conseguir se esquecer da ardente 
paixo que desfrutamos juntos, e do xtase que despertamos um no outro?
- A voz dela ia num "crescendo", at se transformar num grito de agonia: 
- No, no! S eu posso lhe dar o que voc precisa! S eu posso fazer 
voc atingir o clmax, consequncia de um desejo bem satisfeito!
Os olhos de Zuleika expeliam fascas, os seios arfavam. As palavras como 
que jorravam de seus lbios vermelhos, sem que ela pudesse cont-las.
- Agora oua, Zuleika... - lorde Locke comeou a falar.
- No quero ouvir nada! Voc  que vai me ouvir! Voc  meu, est me 
escutando?  meu, Valiant, e no vou permitir que nenhuma camponesa 
ignorante se ponha entre ns.
Ela aconchegou-se mais junto dele e suplicou, com voz pattica:
- Case comigo! Farei voc muito feliz, e serei uma esposa da qual vai se 
orgulhar!
- Sinto muito, Zuleika, mas como lhe comuniquei ontem, estou noivo de 
miss Gytha Sullivan, e nosso compromisso  to firme como se j
estivssemos casados.
Falava com autoridade, e sem hesitar.
Os homens que serviram sob o comando dele durante a guerra sabiam que 
esse tom de voz significava no haver mais possibilidade de argumentao.
Por segundos, nenhum dos dois falou.
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Zuleika, ento, afastou-se um pouco dele e ameaou:
- Muito bem! Voc e essa caipira vo me pagar por isso. No admito ser 
tratada dessa maneira por homem algum, sem me vingar! Lembre-se do que 
estou dizendo, Valiant! E, ainda mais, dia vir em que voc vai querer 
voltar para mim, pois mulher alguma do mundo pode lhe provocar a chama do 
desejo como eu.
As ltimas palavras soaram como um silvo, um chiado estranho.
Pareciam vir de uma serpente e no de um ser humano. Em seguida, ela saiu 
da sala devagar. Deslizou pelo tapete sinuosamente, o que enfatizou as 
ameaas que acabara de pronunciar, e a fez ainda mais semelhante a uma 
serpente.
Lorde Locke permaneceu imvel.
Quando ficou sozinho, deu um suspiro de descontrao e esperou que 
Zuleika sasse de sua vida para sempre.
Alguns hspedes resolveram partir s depois do almoo, por
isso ele tomou uma taa de champanhe com o grupo, no salo.
S depois lembrou-se de que, acreditando estar sozinho com
Perry naquele dia, havia convidado Gytha para almoar e jantar
com eles.
Ia avisar Bates que estava esperando pela jovem, quando o mordomo entrou 
na sala com uma salva de prata e uma carta. Era de Gytha e dizia o 
seguinte:
Por favor, desculpe-me por no comparecer ao almoo e jantar de hoje, mas
vov no est bem. Os mdicos disseram que ele precisa ficar em repouso,
e a nica pessoa que pode entrar no quarto sou eu.
Entende, portanto, que devo ficar  disposio, no caso de ele necessitar 
de mim.
Muito obrigada mais uma vez por sua presena aqui em casa ontem, e 
ficarei duplamente agradecida se puder dar um jeito de me visitar amanh.
De sua amiga sincera, Gytha".
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A caligrafia, lorde Locke notou, era muito elegante, e a carta bem 
escrita.
Ele a ps no bolso e continuou conversando com os amigos.
Todos apreciaram muito o excelente almoo.
Logo aps, Lucy Compton e seu companheiro pediram permisso para 
permanecer mais uma noite.
Voltariam a Londres bem cedo na manh seguinte.
- Est to bom aqui, querido Valiant - Lucy comentou -, e vai ser 
maravilhoso ficarmos apenas com voc e Perry, sem a turbulenta princesa 
que me lana olhares viperinos cada vez que dirijo a palavra a voc.
Lorde Locke sorriu.
- Ela realmente me assusta! - Lucy prosseguiu. - E, como bons amigos que 
somos, podemos nos divertir mais sozinhos.
E eles ficaram.
Lady Compton era bastante inteligente, alm de bonita, por isso o dia 
passou agradavelmente, em meio a piadas e risos.
- Quando voc vai voltar a Londres? - Perry perguntou a lorde Locke ao 
lhe desejar boa noite.
- Logo depois que resolver os problemas daqui. No quero deixar aquela 
pobre menina  merc de seus desprezveis primos.
- No, claro que no deve - Perry concordou -, e se houver algo que possa
fazer para ajud-lo, sabe que estou s ordens. Tive grande admirao pelo
pai dela; na verdade, ele foi um dos homens mais bondosos que conheci.
- Eu tambm penso assim - lorde Locke concordou. Mas quando foi para a 
cama, comeou a sentir-se culpado
em relao a Gytha.
"Acho que deveria ter escrito uma nota para ela, e talvez mandado flores. 
"
No dia seguinte, ao visit-la, levaria algumas orqudeas que floriam 
agora nas estufas da propriedade.
E acomodou-se confortavelmente no prprio leito, nem pensando mais em 
Zuleika e em suas ameaas.
Acordou s sete horas com Walters abrindo as cortinas e chamando-o, como 
de hbito.
Quando viu que o patro estava completamente desperto, informou:
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Acho que o senhor gostaria de saber, milorde, que sir
Robert Sullivan faleceu a noite passada. Lorde Locke sentou-se na cama. -
Ele est morto? Como soube? Um rapaz da aldeia, milorde, nos deu a 
notcia.
- Preciso ir l depois do caf para ver se h alguma coisa a se fazer.
Imaginou que os primos de Gytha providenciassem o funeral, ao menos.
E tambm poderiam ajud-la a comunicar o infausto acontecimento aos 
parentes.
Lorde Locke contou a Perry o que sucedera e disse que iria visitar Gytha 
e sugerir-lhe que viesse passar uns dias em Locke Hall, at que se 
fizesse alguns arranjos no sentido de encontrar uma companhia para ela.
- Vou mandar um recado a minha tia que mora na Dower House - lorde Locke 
falou. - Ela  um pouco cansativa mas boa pessoa, e vai adorar vir aqui 
ou levar Gytha para a casa dela.
- tima ideia! - Perry exclamou - e assim podemos voltar a Londres. No 
se esquea de que prometeu ao prncipe regente ir  reunio da prxima 
quarta-feira.
- E ele, na certa, vai ficar aborrecido se eu no comparecer
- lorde Locke replicou.
Os dois amigos cavalgaram por muito tempo antes do breakfast.
J eram quase dez horas quando enfim lorde Locke foi  casa de Gytha.
Ele atravessou a floresta em litgio, pois, atravs de Monk's Wood 
chegaria bem mais depressa  propriedade dos Sullivan.
A relva estava muito crescida, o que o fez ir devagar.
Ainda seguia num trote moderado quando observou que o espinho de algum 
arbusto se prendera na anca direita do cavalo.
Ele se inclinou para retir-lo e, ao fazer isso, salvou sua vida.
Nesse exato momento ouviu-se um estampido.
Uma bala penetrou em seu chapu alto arremessando-o longe, e o cavalo 
empinou.
Lorde Locke estivera em muitas situaes de grande perigo no passado.
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Ele sabia que a melhor coisa a se fazer era sair depressa do lugar.
Do contrrio, o agressor tentaria atingi-lo com outro tiro.
Abaixou-se, encostando-se bem na montaria, e esporeou animal.
Em -segundos chegava em campo aberto.
A, galopou at Sullivan Hall.
Ele mal podia acreditar que, na quietude de um lugar pequeno, sua vida 
estivera em perigo.
Se no tivesse se inclinado naquele instante, a bala teria varado sua 
cabea.
E ele estaria morto, jogado na floresta.
Parecia incrvel que os irmos Sullivan ousassem cometer tal crime.
Mas, no podia pensar em ningum mais que pudesse tirar alguma vantagem 
de sua morte.
Lorde Locke estava muito mais furioso que chocado com o sucedido.
A expresso de seus olhos, o ricto da boca, mostravam claramente que ele 
tomaria uma atitude severa contra aquele criminoso.
Mais cedo ou mais tarde, ele pagaria por ato to covarde.
E assim pensando, chegou a Sullivan Hall.
Entregou suas luvas e o chicote a um lacaio com feies assustadas.
Ele atribuiu isso  morte do amo.
A casa, com as venezianas abaixadas, apresentava-se mais lgubre e 
opressiva que em geral.
- Onde est miss Gytha? - ele perguntou.
- No escritrio, milorde.
- Vou para l - lorde Locke declarou.
Refletia em como consolar a jovem pela morte do av. Tentaria confort-la 
como pudesse.
Ento, enquanto ainda estava no corredor, ouviu um grito estridente.
No dia anterior, Gytha evitara se encontrar com os primos. Passou o tempo 
todo no quarto do av.
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Pediu ao mdico que insistisse com Vincent e Jonathan para no 
perturbarem o tio, tornando bem claro que at a presena deles no quarto 
seria desastrosa.
- Deixe tudo comigo, miss Gytha - o mdico, que a conhecia h longos 
anos, observou. - Como j a preveni, seu av no vai viver muito, e a 
nica pessoa pela qual ele tem afeio  voc.
- Contudo, tem uma estranha maneira de demonstrar esse afeto - Gytha 
murmurou.
- Eu sei, minha querida, eu sei. Na verdade, ele nunca se recuperou bem
do choque da morte do filho.
Gytha foi para o lado do av.
Pensou mais uma vez como devia ter sido triste para ele perder o nico
filho.
A ira e insatisfao do velho homem poderiam ter como causa o fato de 
ficar vivo, enquanto um jovem como seu filho morrera.
Tarde da noite, Dobson insistiu que Gytha fosse dormir.
- Eu cuido do patro - ele garantiu.
- E me chama se ele perguntar por mim?
- Claro, miss.
Gytha cedeu e foi para a cama.
Estava ainda escovando os cabelos quando algum bateu  porta. Era 
Dobson.
-  melhor vir depressa, miss. Gytha correu at o quarto do av.
Viu logo que ele respirava com dificuldade. Porm, quando ela se sentou 
ao lado dele e tomou-lhe a mo, o velho abriu os olhos.
- Estou aqui, vov - ela disse, achando, no obstante, que o av no a 
reconhecera.
Por segundos teve a impresso de que lhe apertava os dedos. Depois, numa 
voz muito, muito baixa, quase inaudvel, ele sussurrou:
- A filha... de Alex.
- , vov, sou eu, Gytha. Sir Robert fechou os olhos.
Gytha acreditou que ele tivesse dormido, mas continuava com a respirao 
ofegante.
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Em seguida, moveu mais uma vez os lbios e ela pde ouvi-lo murmurar:
- Minha... herdeira. E morreu.
Foi Dobson quem a tirou do quarto. Dobson chamou o mdico. Dobson levou a 
notcia a Vincent e Jonathan.
Gytha permaneceu acordada por horas a fio.
Tinha agora de lutar contra Vincent e Jonathan, que viriam atrs dela por 
causa do dinheiro do av.
E estava com medo, mesmo sabendo que lorde Locke a protegeria.
Mas, na manh seguinte, por ter que comunicar a vrias pessoas a morte de 
sir Robert, ela fez enorme esforo e comeou a trabalhar.
Ps um vestido de musseilna branca com uma faixa preta na cintura, e
desceu.
Para seu alvio, no havia sinal dos primos na casa.
Quando perguntou, um pouco apreensiva, onde eles se encontravam, lhe foi 
respondido que tinham sado.
- Acho, miss - o lacaio interrogado replicou - que o sr. Vincent foi 
caar.
- Caar? - Gytha indagou surpreendida.
- Levou um rifle com ele. Era mesmo muito estranho.
Gytha no entendia a razo de se precisar de um rifle para alvejar pombos 
e coelhos.
Talvez fosse matar os veados do parque!
Ela deu uma exclamao de horror!
No tendo havido quase visitas ou pessoas estranhas na propriedade por 
muitos anos, os veados ficaram bastante mansos.
Vinham comer nas mos de qualquer um.
Raramente corriam, a no ser quando perseguidos por um co.
O av, a pedido de Gytha, dera instrues severas aos guardas-florestais 
para que no se atirasse nos veados.
E havia dezenas deles espalhados pelo bosque.
Gytha adorava v-los descansando  sombra das rvores frondosas.
"No posso crer que Vincent faa alguma coisa assim cruel como matar 
esses animais", ela tentava se convencer.
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Contudo, no conseguia ver outra razo para ele ter tirado um rifle da 
sala de armas.
Ainda preocupada, foi ao escirtrio e comeou a fazer uma lista das 
pessoas a quem deveria comunicar o passamento do av.
O mdico viria mais tarde com o agente funerrio. Tudo sobre o 
sepultamento ficaria nas mos deste ltimo.
"Minha parte  cuidar para que ningum seja esquecido", ela disse a si
mesma.
Iniciou ento a tarefa, escrevendo para uma prima idosa, que morava em 
Bath, e que talvez no tivesse condies de empreender uma viagem para 
assistir ao funeral.
Emily, a camareira de Gytha, entrou na sala.
- Esqueci de dizer, miss, pois me escapou completamente da memria, que 
entregaram um presente de casamento para a senhorita ontem  noite.
- Presente de casamento? - Gytha exclamou.
- Sim, miss, e achei muito estranho chegar justo quando o patro estava 
morrendo. Por isso, esqueci de falar.
- Como sabe que  um presente de casamento?
Gytha olhava para o volume com aparncia de uma cesta redonda, nas mos 
de Emily.
- Um homem trouxe isto aqui, miss. Era bem tarde, depois que a senhorita 
j tinha ido para o quarto. Ele disse que se perdeu no caminho, da a 
razo de chegar quela hora.
Gytha encarou Emily, perplexa, e depois pensou:
"Se for mesmo um presente de casamento, tem de ser devolvido quando 
terminarmos o noivado".
Mas, por esse presente  que ela no esperava! E nem podia imaginar quem 
o havia mandado.
Seu noivado com lorde Locke era ainda um segredo, exceto para Perry e a 
princesa Zuleika.
De repente, concluiu que talvez fosse de lorde Locke.
Era bem dele fazer uma coisa dessas para lhe levantar o moral e compensar 
pelo fato de ela no ter podido ir a Locke Hall no dia anterior.
- Vamos ver o que h nesse pacote, Emily. Abra enquanto eu acabo de 
escrever esta carta.
89
Emly ps a cesta no cho e desamarrou os barbantes. Gytha prosseguiu 
escrevendo:
"... e espero, prima Bertha, que possa vir para o funeral de vov, e que 
tenhamos oportunidade de nos vermos outra vez.
Afetuosamente, Gytha".
No momento em que ela assinava a nota, Emily abria a cesta.
E deu um grito de horror.
- Afzss... Gytha! Mss... Gytha! - exclamou. A cesta estava aberta, a
tampa cada ao lado.
Gytha pde ver ento, enrolado bem no centro, algo vivo e negro.
Enquanto fixava os olhos nessa coisa estranha, Emily dava outro grito.
Pulando para cima de uma poltrona, a empregada tremia, segurando a saia
em volta do corpo.
Tratava-se de uma serpente, e muito venenosa, Gytha reconheceu logo.
O rptil saiu da cesta e se arrastava pelo tapete, chiando, na direo da 
escrivaninha onde Gytha estava.
Ela se levantou imediatamente e, a exemplo de Emily, subiu primeiro na 
cadeira e depois no tampo da escrivaninha.
-  venenosa! Vai nos matar! Oh, miss Gytha, que podemos fazer?
Quando a empregada falou, a serpente virou-se para a direo dela. Emily 
berrava cada vez mais alto.
Foi ento que a porta se abriu e lorde Locke apareceu. Levou um segundo 
s para avaliar a gravidade da situao.
- Fiquem onde esto - ele ordenou -, e no faam barulho!
E saiu da sala.
A serpente se rastejava sem parar pelo espesso tapete, a procura de uma 
presa.
Ia outra vez ao encalo de Gytha, que se considerava segura sobre a mesa.
Tudo foi muito inesperado e assustador.
90
Gytha dava graas a Deus por lorde Locke estar l.
Dizia uma prece de agradecimento, quando ele voltou trazendo uma pistola 
de duelo pertencente ao av.
Ouviu-se o som de um tiro, bastante alto devido ao ambiente fechado,
entre as quatro paredes de uma sala.
A serpente morreu, apesar de ainda mover um pouco a cauda.
Emily caiu em pranto convulso.
- Est tudo bem agora - lorde Locke a acalmava. - Acabou o perigo. Ela 
no pode atacar voc.
Mais que depressa, a empregada desceu da poltrona e se retirou da sala 
correndo, berrando como uma criana assustada.
Lorde Locke pegou o rptil pela cauda e o jogou dentro da cesta, 
fechando-a em seguida.
Foi para perto de Gytha e a colocou no cho.
- Como, em nome de eus, isso veio parar aqui? - ele indagou.
Gytha se apoiava nele, e no respondeu logo. Estava muito plida e 
trmula.
- Foi... mandado... para mim, como presente... de casamento.
- Por quem?
- No tenho a mnima ideia. Chegou ontem...  noite, e Emily se 
esqueceu... de me comunicar at h poucos minutos. O portador... que 
deixou a encomenda... na porta... no deu o nome de ningum.
Lorde Locke comprimiu os lbios.
- Voc ir comigo para Locke Hall hoje mesmo - ele disse -, e vai ficar 
l at encontrar algum que lhe faa companhia aqui. J mandei um recado 
a minha tia em Dower House, para pedir a ela que v morar por uns tempos 
em minha casa; assim voc no estar sozinha.
Gytha fitou-o.
Lorde Locke no pde deixar de compar-la a uma criana aguardando 
ordens. Parecia, na verdade, incapaz de cuidar de si mesma.
Ele ps o brao em torno dos ombros de Gytha e declarou:
- Deixe tudo comigo. Apenas diga a sua empregada, quando ela se recuperar 
do choque, para fazer suas malas. Algum
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vir aqui para apanh-las. J mandei que meu faetonte seja enviado para 
c, e eu conduzirei voc a Locke Hall.
- Devo mesmo ir para l?
- Sem dvida! No considero seus primos de confiana neste momento... 
Fez uma pausa pensando se deveria ou no relatar o sucedido. Depois, 
achou errado conservar em segredo o atentado que tinha sofrido.
- considerando-se - ele continuou - que um deles tentou me matar!
- No pode ser verdade!
- Algum atirou em mim enquanto eu cavalgava atravs de Monk's Wood.
- No posso acreditar! - Gytha murmurou.
- Se eu no tivesse me abaixado naquele preciso instante, a bala teria 
entrado em minha cabea e eu no estaria aqui agora, conversando com 
voc.
Gytha deu um grito de pavor. Aps, observou:
- Foi Vincent! Fiquei surpreendida quando soube que ele levara um rifle 
consigo. Tive medo que fosse para matar um dos veados.
- No eram os veados o alvo dele, mas eu! Queria me matar! Quer dar cabo
de mim! Precisamos ter cuidado, Gytha, voc e eu.
Gytha fitou-o e sussurrou:
- E eu acho que deve ter sido a princesa quem mandou a serpente para
mim.
- Por que desconfia dela? - lorde Locke perguntou, apesar de alimentar, 
tambm, a mesma suspeita.
No entanto, desejava saber as razes da desconfiana de Gytha.
- Ela me disse que voc era propriedade dela e que se eu tentasse me pr
entre os dois, me arrependeria muito por minha pretenso e ousadia.
Gytha podia ainda ouvir a ameaa de Zuleika e se lembrar de como tinha 
ficado em pnico.
Mas mesmo assim, ela achava inconcebvel que algo to terrvel e venenoso 
como uma serpente pudesse lhe ter sido enviado por outra mulher.
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Instintivamente, chegou-se mais perto de lorde Locke, como se 
necessitasse de proteo.
- Que vamos fazer? - ela perguntou. - De que modo podemos escapar se trs 
pessoas, Vincent, Jonathan... e a princesa esto determinados a nos 
matar?
- Se eu tiver de morrer - lorde Locke replicou -, no ser em 
consequncia de uma bala dirigida contra mim por um covarde, que tem medo 
de me enfrentar.
- Mas voc no pode... estar sempre... vigilante! Lorde Locke sabia ser 
isso verdade.
Porm, no querendo que Gytha se preocupasse, declarou:
- O que vamos fazer agora,  fugir de todo esse desconforto. Seu pai 
concordaria comigo em que um bom general conhece a hora de recuar!
Era sempre interessante falar a Gytha sobre o pai. Depois de algum tempo, 
ela observou:
- Acho que foi... papai quem me inspirou para procurar voc quando tive 
medo que... vov me obrigasse a casar com um de meus primos. Mas ele no 
gostaria, tenho certeza, de que eu pusesse sua vida... em perigo.
- Ele tambm no desejaria que voc fosse vtima de coisa to nefasta 
como uma serpente venenosa. Agora ambos temos que ser prudentes e, uma 
vez sabendo quem so nossos inimigos, precisamos tratar de venc-los.
Ele apertou-a contra si, como um irmo o faria, e prosseguiu:
- Ande depressa e pegue umas roupas. Vou levar voc para minha casa a fim
de vivermos um pouco em paz, sem termos medo de escorpies escondidos nas
cadeiras, e de armas apontando para ns de cima dos lustres.
Falou com tanta naturalidade e calma que fez Gytha at esboar um 
sorriso, ainda que nervoso.
Ento, deixou o conforto dos braos dele e foi em direo  porta.
S quando l chegou  que disse:
- Estou envergonhada e horrorizada que tudo isso tenha acontecido porque 
pedi sua ajuda. Mas, ao mesmo tempo agradeo a Deus... e a papai... por 
voc estar aqui comigo.
Havia lgrimas nos olhos de Gytha.
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Logo aps, ela saiu da sala correndo.
Lorde Locke olhou para a cesta no cho, com a serpente dentro.
Mal podia acreditar que tais coisas tivessem tido lugar na placidez e
quietude da Inglaterra.
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CAPITULO VI

Lorde Locke esperava no hall impacientemente por Gytha.
A carruagem j os aguardava  porta.
Ele mandara um cavalario de volta com sua montaria, levando ordens tpara 
que fosse enviada outra carruagem a fim de apanhar as malas.
Gytha desceu usando um agasalho preto enfeitado de pele, que pertencera  
me.
Tinha na cabea um chapu do qual ela se apressara em tirar as fitas 
azuis, substituindo-as por pretas.
Estava apreensiva por fazer lorde Locke esperar tanto por ela.
Assim que chegou ao lado dele, pediu: - Por favor... preciso falar com 
voc.
- Que tal enquanto estivermos a caminho, Gytha? Lorde Locke parecia 
ansioso para sair daquela casa.
Ele antevia a cena que poderia irromper se Vincent voltasse. Claro que o 
acusaria de ter tentado mat-lo na floresta.
- Por favor - Gytha insistiu.
Sem discutir, ele a acompanhou at a porta da sala onde jazia o corpo de 
sir Robert.
- H... algo que preciso... dizer - Gytha gaguejou.
- O que ?
- Supliquei para voc me ajudar. Mas nunca supus, nem
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por um segundo, que meu pedido significasse pr sua vida. em perigo. 
Ento acho melhor eu ficar aqui e favorecer meus primos.
Lorde Locke a encarava sem entender bem. No sabia se ela estava sendo 
sincera.
Mulher alguma de suas relaes deixaria de se pendurar no pescoo dele em 
busca de proteo.
E tambm faria uma choradeira, mostrando o quanto necessitava de amparo.
- Se eu ceder ao que me pede, Gytha, como manobraria a situao?
- J pensei muito. Ofereo a Vincent e Jonathan todo o dinheiro que vov 
me deixou e a casa tambm. Eles ficaro muito satisfeitos e eu no 
precisarei me casar... com nenhum dos dois.
No fitou lorde Locke enquanto falava, mas ele sabia que os olhos de 
Gytha tinham expresso de medo, pois ela tremia.
- E o que vai acontecer com voc, Gytha?
- Posso ficar com um pouco de dinheiro e com um chal dentro da 
propriedade. Vincent talvez permita que eu cuide dos cavalos... como 
venho fazendo at agora. Serei bastante feliz assim.
- E acha que seu pai, estando em meu lugar, concordaria com uma coisa 
dessas?
Gytha encarou-o e ele viu um raio de esperana nos olhos da jovem.
- Voc, realmente quer dizer... - ela replicou hesitante
- que arriscaria sua vida continuando a me... ajudar?
-  o que vou fazer, Gytha. Voc e eu vamos enfrentar o perigo juntos, 
sabendo agora de onde ele vem.
- Mesmo considerando que essa luta no devia ser sua?
-  minha tambm, pois no me agrada ser o alvo de balas inimigas. Venha! 
Estamos perdendo tempo, e quanto antes chegarmos  segurana de Locke 
Hall, tanto melhor. E preciso lhe dizer que estou muito grato por voc
ter se lembrado de mim nesta triste eventualidade.
Ela o fitou mais uma vez e, nesse momento, lorde Locke vislumbrou uma
expresso nos olhos de Gytha que o deixou preocupado.
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"Se esta criana se apaixonar por mim", ele disse a si mesmo, "as
coisas vo ficar ainda mais complicadas do que j esto. "
E quase abruptamente ele abriu a porta, dizendo:
- Os cavalos esto inquietos. Vamos evitar isso! Depressa! Gytha sorriu e 
ambos saram.
Lorde Locke ajudou-a a subir no faetonte.
Enquanto seguiam pela estrada, Gytha tinha a impresso de que ele a 
levava para o cu, e tudo o que a afligia era deixado para trs.
Tomaram a estrada poeirenta e a distncia at Locke Hall foi muito mais 
longa do que se tivessem ido pelo caminho da floresta.
No falaram durante o trajeto.
Ela estava abandonando Vincent e Jonathan naquela casa escura, com o av 
morto na cmara ardente,
Sir Robert j tinha sido colocado no caixo quando Gytha tornou a v-lo.
Parecia muito digno no leito de morte, com a expresso do rosto mais 
bondosa do que havia tido em vida.
Gytha disse uma prece ao lado dele antes de sair.
Dobson apressou-se em lhe dizer:
- No se aborrea, miss Gytha. O patro est em paz, no sofre mais dores 
agora.
"Daqui por diante, lorde Locke cuidar de mim", Gytha pensou, mas 
planejava voltar para o funeral.
No momento, ela sentia como se as trevas que circundavam sua vida 
houvessem sido varridas para sempre.
O esplendor da luz do sol entrava em sua existncia, parecendo quase um 
milagre.
" Obrigada... meu Deus... por permitir que lorde Locke... me proteja. "
E olhou para o perfil dele, esboado na claridade do cu.
Ele concentrava toda a ateno nos cavalos.
Uma onda de calor percorreu o corpo de Gytha.
Tinha mpetos de lhe dizer o quanto ele era importante em
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sua vida, pois no ignorava que tudo mudara por causa do carinho dele.
Como se adivinhasse os pensamentos de Gytha, ele a fitou e sorriu.
Nesse instante, ela soube que o amava!
No somente isso, mas que o amara desde a primeira vz em que o vira
caando.
Lorde Locke era, para Gytha, o homem mais fascinante e atraente do mundo!
Toda a vez que ela o observava disputando uma corrida de obstculos, 
comparava-o a um cavaleiro da Idade Mdia, com sua reluzente armadura.
Parecia ter sado dos contos de fadas, ou dos anais da cavalaria que sua 
me lia quando ela era criana.
Gytha no tinha mais que quinze anos quando lorde Locke comeou a fazer 
parte de seus sonhos.
Ela pedia aos cavalarios que lhe contassem tudo sobre os cavalos das 
estrebarias do atraente vizinho.
Depois, lorde Locke desapareceu por muito tempo, primeiro no exrcito de 
ocupao durante as guerras napolenicas, e aps, numa viagem de volta ao 
mundo.
Mas Gytha nunca parou de falar sobre ele.
Muitos empregados que trabalhavam em Locke Hall, ou em Locke House em 
Londres, possuam parentes na aldeia prxima.
Essas pessoas sempre tinham novidades a relatar acerca do homem que a 
vizinhana admirava.
Sua bravura na guerra foi exaltada por todos.
As festas que ele dava em Londres, depois de sua volta, eram descritas 
dzias de vezes, sendo o prncipe regente o convidado de honra, sempre.
Gytha tambm ouvia falar das lindas mulheres com as quais ele passava o 
tempo.
No se surpreendia de que elas ficassem com o corao aos pedaos, quando 
abandonadas por homem to sedutor.
Quase todos os dias havia algo novo a ser comentado referente a lorde 
Locke, na lojinha da aldeia, cujo dono era pai
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de uma empregada de Sullivan Hall e de um cavalario de lorde Locke, em
Londres.
Morava tambm na aldeia um parente do valete de sua senhoria, informante
como os demais.
Gytha ouvia muito a respeito das festas que lorde Locke tencionava dar em 
casa dele, bem antes que os prprios empregados da manso soubessem 
disso.
E agora caa em si quanto  razo de todo seu interesse pelo vizinho.
Ele tinha sido o heri de suas fantasias, o homem que ela admirava acima 
de todos os outros.
Mas, por causa da briga das famlias, acreditava com desespero nunca 
poder conversar com ele.
E agora, estava ao lado desse mesmo homem, que iria proteg-la das 
ameaas que a cercavam.
Achava que nenhuma mulher no mundo poderia ser mais feliz que ela.
"Eu o amo! Eu o amo!" Gytha repetia mentalmente, acompanhando o som 
ritmado das rodas da carruagem e das patas dos cavalos batendo no solo.
Mas achou melhor ser cuidadosa.
"Ele jamais deve saber acerca de meus sentimentos. "
A carruagem parou em Locke Hall.
Perry esperou-os fora.
Enquanto ajudava Gytha a descer do faetonte, ele disse:
- Por que voc est sem chapu, Valiant? Voou carregado pelo vento?
- "Voou"  a palavra certa - lorde Locke respondeu, antes que Gytha o 
fizesse -, mas o vento no foi o responsvel, e sim uma bala de rifle.
Perry encarou-o assustado e lorde Locke prosseguiu:
- Vou contar tudo a voc mais tarde.
E os trs entraram no hall, inundado pelos raios de sol. Lorde Locke 
encaminhou-se com as visitas para a biblioteca. L, serviu champanhe a 
todos e comentou com Perry:
- Gytha e eu merecemos uma bebida. Quando voc souber pelo que passamos, 
no vai acreditar!
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- Mas que diabos aconteceu? - Perry estava curioso e apreensivo ao mesmo 
tempo.
- Meu chapu foi arrancado da cabea por uma bala, na muito disputada 
Monk's Wood - lorde Locke explicou -, e Gytha recebeu de presente de
casamento uma vbora, uma adder!
- No acredito! - Perry exclamou.
Ento ambos, Gytha e lorde Locke, contaram tudo com detalhes.
- Vincent atirou em mim - lorde Locke declarou -, e a serpente venenosa 
foi sem dvida uma ideia diablica de Zuleika, para um "adequado" 
presente de casamento!
- E o que vocs vo fazer agora? - Perry indagou. Lorde Locke sacudiu os 
ombros.
- O que podemos fazer? Sei que eles so os culpados, mas suspeitas sem 
provas no sero aceitas como evidncia em tribunal nenhum.
- Mas vocs no podem apenas se sentar esperando que isso acontea outra 
vez! - Perry exclamou.
- Quer sugerir o que devemos fazer, excluindo-se abandonar o pas? - 
lorde Locke inquiriu.
Gytha colocou o copo de champanhe na mesa ao lado da poltrona.
Juntando as mos, suplicou:
- Por favor, major Westington, oua-me! Peo-lhe que convena sua 
senhoria de que a nica coisa sensata a se fazer  dar todo o dinheiro
que vov me deixou para meus primos. Assim, eles no tero mais motivos
para matar lorde Locke... e ele estar seguro!
- No vou me render a um animal dessa categoria! - lorde Locke protestou 
com firmeza.
- No, claro que no! - Perry concordou. - E, se houver luta, Gytha, eu 
me porei ao lado de Valiant contra qualquer inimigo. Ademais, ele  o 
melhor atirador de pistola que conheo!
Gytha no discutiu.
A nica coisa que a desesperava era que Vincent jamais atacaria lorde 
Locke de peito aberto.
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Faria o mesmo que antes, isto , atiraria de uma floresta, bem escondido 
de todos.
Ou  noite, enquanto lorde Locke entrasse na carruagem.
Ou o aguardaria de tocaia, na volta de uma caada, para depois fugir 
antes de ser identificado.
"Que posso fazer para salv-lo?", Gytha se questionava.
O amor que nutria por ele aumentava a cada minuto.
Desejava lhe confessar que preferia morrer a v-lo ferido ou morto para
defend-la.
Mas no ousou dizer nada.
com os olhos assustados, Gytha assemelhava-se a um animalzinho nervoso. 
Por isso, lorde Locke observou:
-  bobagem vocs se preocuparem -toa. O que precisamos decidir com 
calma e sem pnico  como enfrentar a situao. - Sorrindo, acrescentou: 
- E agora, queremos um bom almoo! Minha bab sempre dizia que as coisas 
parecem bem menos dramticas com o estmago cheio.
Gytha sorriu tambm, e lorde Locke se alegrou com isso. Ela foi para o 
andar superior onde a sra. Meadows, a governanta, a aguardava.
O quarto que Gytha iria ocupar era grande e muito bonito. Tirando o 
chapu, ela disse  sra. Meadows:
- Minhas roupas vo chegar mais tarde, porm me sinto um pouco sem jeito 
por ter s um vestido preto, e que foi de minha me. Acho que no vou ter 
oportunidade de comprar outros to cedo.
A governanta olhou para Gytha, examinou-a, e sugeriu:
- Penso, miss, que se a senhorita no for orgulhosa demais, posso 
resolver esse problema at que tenha tempo de ir a Londres, ou a qualquer 
outro lugar para compras.
- Pode? Mas como?
- A irm de sua senhoria, miss, est atualmente na ndia com o marido. 
Partiu h mais de um ano e deixou todas as roupas de inverno aqui, 
dizendo no serem necessrias naquele pas, devido ao calor excessivo.
- Acha que ela no se importaria em emprestar algumas?
- Gytha indagou.
- No, claro que no, miss. De qualquer maneira, tenho
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certeza de que, quando sua senhoria voltar, vai querer adquirir tudo
novo, alegando que as roupas deixadas aqui esto fora de moda!
- Ela deve ser bem exigente! - Gytha murmurou. A sra. Meadows sorriu.
- O marido de sua senhoria, sir Murrey Weldon,  um homem riqussimo, e 
d  esposa tudo o que ela deseja.
Gytha j ouvira falar na irm de lorde Locke, e sabia que era muito 
linda.
Fora uma das beldades de St. James, antes do casamento.
H trs anos se casara com o elegante coronel da Guarda dos Drages da 
Rainha.
Quando Gytha soube que eles tinham sido enviados para a ndia, mostrou-se 
interessada.
Principalmente porque lera sobre as viagens do av naquele pas.
Gostaria de tambm poder visitar a ndia.
Mas por agora, estava bastante satisfeita em usar os vestidos de lady 
Weldon.
No se sentiria to acanhada a respeito de sua aparncia diante de lorde 
Locke, como acontecera no jantar.
Lembrando-se daquela noite, concluiu que mulheres como a princesa Zuleika 
provavelmente a tinham analisado desdenhosamente, com aquele vestido de 
musselina feito em casa.
- Obrigada - Gytha disse  governanta -, a senhora  muito bondosa.
- O que estou pensando tambm, miss,  que no  necessrio usar luto
fechado quando na companhia s de sua senhoria e do major Westington. A
sra. Weldon tem alguns vestidos num tom lils, o que  considerado meio 
luto, e acho que vo combinar com seu cabelo louro e ctis alva. Na 
verdade, vai parecer uma verdadeira violeta.
Gytha adorou a ideia.
A sra. Meadows trouxe-lhe ento um dos vestidos roxos.
Era da ltima moda, e feito com um tecido caro, que Gytha jamais se 
atrevera a comprar para si.
E ela desceu ao encontro dos dois homens, sentindo-se muito 
autoconfiante.
102
Ji
Ao menos lorde Locke a consideraria  altura da grandeza de sua casa.
Foi Perry o primeiro a exclamar, assim que a viu:
- Voc parece uma violeta, e elegante demais s para mim e Valiant!
Gytha corou.
- "O hbito faz o monge" - ela disse um pouco sem jeito -, mas devo 
confessar que neste caso o hbito  emprestado.
Temendo ter feito qualquer coisa de errado, dirigiu-se a lorde Locke e 
acrescentou depressa:
- Como minha camareira ainda no chegou com as roupas e o meu vestido 
estava amarrotado, a sra. Meadows insistiu que sua irm no se importaria 
de me emprestar as roupas dela.
- Naturalmente que ela no se importa e, como Perry muito bem se 
expressou, voc est uma graa.
Ele falou com bastante naturalidade, que no deixou Gytha embaraada com 
o elogio.
Mas no impediu que ela sentisse o corao palpitar mais forte.
A sala parecia ainda mais clara agora, devido s palavras amveis de 
lorde Locke.
Gytha no sabia que, enquanto se trocava no quarto, Perry dissera ao 
amigo:
- Vai ser um trabalho duro para voc, Valiant, enfrentar todo esse 
problema. Como pretende agir?
- Que posso fazer? - lorde Locke perguntou.
- O comportamento de Zuleika foi ignbil e merece castigo. E eu gostaria 
tambm de que voc desse uma boa lio nos Sullivan.
- Queria puni-lo com minhas prprias mos - lorde Locke concordou -, mas 
no sei como desafi-lo por um ato que ele, com certeza, vai negar.
- Mas voc j se conscentizou de que, a menos que tome uma atitude, vai
ser um alvo fcil para o inimigo?
- Claro que sim. Contudo, peo a voc que no fale sobre isso a Gytha, 
para no a assustar ainda mais do que j est.
103
Perry obedeceu.
E foi ele quem iniciou durante o almoo uma conversa alegre e divertida.
No houve referncia alguma ao drama daquela manh.
Lorde Locke tomou parte ativa na conversa.
Gytha ria sem parar das coisas que os dois homens diziam.
Um amigo discutia com o outro sobre assuntos vrios, mas sempre em tom 
jocoso.
Eles trocavam ideia com tanto senso de humor, que Gytha concluiu nunca 
ter se divertido tanto.
Ao mesmo tempo, tinha um pouco de complexo de culpa por se sentir to 
feliz logo aps a morte do av.
Porm, fugir daquela casa ameaadora e escura, e dos primos, era um 
alvio indescritvel.
Tinha vontade de rir e cantar de puro contentamento, por se ver livre 
deles.
Depois do almoo, foram s estrebarias.
Como lorde Locke avaliara, nada poderia afastar mais a mente de Gytha do 
ocorrido que inspecionar os cavalos.
Havia quarenta animais. Eles percorreram todas as baias.
Os cavalarios conduziram os cavalos mais valiosos para serem exibidos no 
ptio, andando com eles de baixo para cima vrias vezes.
Gytha pde observar como se movimentavam com garbo, e reconheceu a 
linhagem rabe em muitos deles.
Os dois homens estavam surpreendidos com o conhecimento dela sobre 
cavalos e sobre processos de procriao.
Gytha tambm instrura o chefe dos cavalarios acerca de um novo 
cataplasma preparado por ela,  base de ervas, que provara ser muito 
eficiente.
Ele prometeu experiment-lo na primeira oportunidade.
O tempo passou rpido.
Ela mal pde acreditar quando lorde Locke informou que a hora do ch j 
havia passado h muito e que os empregados esperavam por eles em casa.
Apenas depois de terminado o ch, quando subiu para o quarto a fim de 
descansar um pouco antes do jantar, foi que
104
Gytha comeou a pensar em sua prpria casa e no que se passava por l.
Quando sara pela manh, pedira a Emily que dissesse aos primos que tinha 
ido para Locke Hall.
- O sr. Vincent falou que voltaria para o almoo - Emily disse -, mas 
acho que o sr. Jonathan foi a Londres.
- A Londres? - Gytha exclamou atnita. - Ento, no vai voltar hoje.
- Ele deu a entender que chegaria tarde, mas que, com certeza, voltaria 
hoje mesmo.
Gytha se ps a pensar na razo dessa ida a Londres.
De sbito, deduziu que provavelmente ia consultar um advogado para saber 
como contestar um testamento.
Essa concluso concorreu para deix-la mais feliz com a possibilidade de 
se afastar da casa.
Mas tambm no achava justo pr o peso de seus problemas nas costas de 
lorde Locke.
Gytha deitou-se no lindo quarto usando um neglige de seda com aplicaes 
de renda, que pertencia  irm de lorde Locke.
Gytha se imaginou fazendo parte dos personagens de um conto de fadas, 
sendo ela a princesa.
Nunca se vira em ambiente to glamouroso e elegante.
Mais tadre, tomou um banho aromatizado com madressilvas.
A governanta lhe trouxe ento dois vestidos para ela escolher.
Um era lils, um pouco mais claro que aquele usado no almoo.
O outro, branco e bem simples, de chifon.
Ambos eram lindos, por isso Gytha no conseguia se decidir.
Nenhum dos dois tinha ar de luto, da a hesitao, em parte.
- Acha que posso usar um desses vestidos? - ela perguntou  sra. Meadows, 
ansiosa por ouvir uma resposta afirmativa.
- Claro que pode, miss, e vai ficar muito bonita com qualquer um dos 
dois.
- Tem mesmo certeza de que a sra. Weldon no se importar?
- Se importar? A ltima vez que os vestiu, me disse que j estava farta 
deles, e no queria mais ver essas roupas de novo.
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Gytha ps o vestido branco e ficou muito elegante.
Era difcil para ela acreditar que mulher alguma pudesse estar cansada de 
toalete to linda.
Podia-se ver que tinha sido feita por costureiro famoso.
A governanta ajudou-a a arrumar os cabelos num penteado mais moderno.
Depois, colocou duas camlias brancas de cada lado da cabea e mais 
algumas na ponta do decote, na altura dos seios.
Gytha olhou-se no espelho.
No podia crer que a imagem refletida fosse a dela.
Lembrou-se de como lorde Locke a admirara na hora do almoo e s esperava 
que ele tivesse a mesma opinio agora.
Agradeceu  sra. Meadows e foi para o salo, no sem se comparar mais uma 
vez com a princesa dos contos de fada.
Quando chegou no p da escada, um lacaio se encaminhou para ela.
- com licena, miss, mas h uma velha senhora l fora, numa carruagem, 
que me pediu para cham-la, pois deseja falar com a senhorita. Veio 
especialmente para isso, e no se sente bem para chegar at aqui.
- Uma velha senhora? Quem ser!
- Ela no deu o nome, miss, mas disse que era importante se comunicar com 
a senhorita.
Passou pela cabea de Gytha que talvez se tratasse de algum recado dos 
empregados de Sullivan Hall.
- Vou falar com ela - Gytha informou ao lacaio.
- Est frio fora, miss. Se me esperar um segundo, vou buscar um agasalho.
Ele tirou uma capa de pele do armrio de carvalho localizado num canto do
hall, e a ps nos ombros de Gytha.
- Obrigada - ela disse. - Foi muito amvel voc se lembrar disso.
O lacaio abriu a porta para Gytha e ela correu em direo  carruagem 
fechada que a aguardava.
Gytha percebeu vagamente, pois havia pouca claridade, que algum estava 
no banco traseiro.
- Quer falar comigo? - ela indagou.
Assim que acabou de perguntar, sentiu um empurro, e a pessoa sentada no 
banco traseiro puxou-a para dentro.
106
- O que est... acontecendo? O que... querem de mim?
- ela perguntou.
Nesse instante, a velha senhora tirou o xale da cabea e Gytha viu quem 
era.
- Primo Vincent! Que est fazendo aqui? Como ousa me tratar assim?
Jonathan, que estava deitado no cho coberto por um tapete, sentou-se,
com as costas para a boleia.
Gytha no entendia nada, s percebeu que Vincent sorria. Ento, ele falou 
naquela maneira sedosa e ao mesmo tempo repugnante:
- Querida Gytha! Que prazer v-la novamente!
- Voc no tem direito de se portar... desse modo - ela gritou, furiosa.
- Acho que temos todos os direitos do mundo - Vincent a contradisse. - 
Voc fugiu de casa enquanto ns estvamos ausentes. Como pde fazer coisa 
to vergonhosa com seu pobre av ainda insepulto?
Gytha endireitou o corpo. Sentava-se o mais longe possvel do primo.
Notou, com horror, que era levada  fora para distante de lorde Locke.
- Como voc saiu de casa apressadamente, sem se despedir de ns - Vincent
falou devagar, em tom sarcstico -, Jonathan e eu decidimos no discutir
mais sobre nosso futuro. 
 - O que quer dizer com isso?
- Vamos  igreja agora mesmo, onde eu, como o mais velho membro e o
cabea da famlia, vou me casar com voc.
Gytha pensou no ter ouvido bem.
Depois respondeu, irritada:
- Como pode agir de maneira to ultrajante? Se acha que vou me casar com 
voc, est muitssimo enganado!
- Mas no tem escolha, minha querida Gytha - Vincent replicou. - Trago 
aqui comigo uma pistola carregada para o caso de voc tentar me 
desobedecer. No vou hesitar em feri-la de um jeito que no possa escapar 
pela segunda vez. Uma bala na perna vai deixar voc impossibilitada de se 
locomover ao menos por um ms.
107
Fora de si, Gytha retorquiu sem pensar muito:
- Talvez voc erre o alvo, como errou hoje de manh com lorde Locke.
- Ento soube que fui eu? - Vincent zombou. - Bem, uma vez minha mulher, 
no haver necessidade de mat-lo.
- E no h necessidade de voc se casar comigo - Gytha revidou. - Como j 
disse a lorde Locke, tenciono transferir meu dinheiro e a casa para voc 
e Jonathan, com a condio de me deixarem em paz, e a lorde Locke tambm.
-  uma ideia bastante louvvel - Vincent caoou -, mas haveria muitas 
dificuldades legais da parte dos procuradores de tio Robert. - E a voz 
dele tornou-se ainda mais desagradvel quando terminou: - Ao passo que, 
se voc for minha mulher, no teremos riscos.
- Mas eu no me caso com voc! Eu me recuso terminantemente!
- Ento levo adiante minha ameaa, pois no estou brincando, no. E, 
ainda que um pouco atordoada com a dor, voc ser capaz de pronunciar os 
votos matrimoniais. De outro lado, se no criar obstculos, prometo no 
atacar ou ameaar lorde Locke de forma alguma, nunca mais.
Ele riu antes de acrescentar:
- Imagino, que como outras mulheres idiotas, tenha se perdido de amores 
por ele. Ser um conforto para voc saber que, de minha parte, seu lorde 
no sofrer nada.
Gytha suspirou. Vincent era mais esperto do que pensara. Percebeu, pois 
era astuto, que ela amava lorde Locke. E tambm percebeu que, para salv-
lo, ela faria qualquer sacrifcio.
Mas Gytha tentou mais uma vez convenc-lo:
- Se voc e Jonathan quiserem todo o meu dinheiro, estou certa de que 
poderemos arranjar as coisas com facilidade. Fico s com um chal e 
talvez com um espao para alguns cavalos.
-  tarde demais para mudar meus planos - Vincent replicou. - J lhe 
disse que vai ser minha esposa, e Jonathan foi bastante gentil em 
conseguir uma licena especial para nos casarmos agora, sem maiores
problemas, a no ser que voc os crie.
108
"Pensaram em tudo", Gytha refletiu com desespero. Ento, quando se viu 
perdida, comeou a rezar. Primeiro pediu a proteo do pai, e depois a de 
lorde Locke. Repetia muitas vezes enquanto a carruagem rodava:" Salvem-
me! Salvem-me!
Lorde Locke desceu apenas alguns segundos aps a sada de Gytha.
Vendo o lacaio ao lado da porta aberta, exclamou com severidade:
- Est muito frio! Por que razo essa porta est escancarada?
- Achei que tniss Sullivan voltaria logo, sr.
- Miss Sullivan?
Nesse instante, Bates entrou correndo, seguido por outro lacaio, e disse:
- Desculpe, milorde, mas eu estava...
Lorde Locke nem prestou ateno ao que ele dizia.
- Quer me dizer que miss Sullivan saiu?
- Sim, milorde. Uma velha senhora veio aqui de carruagem e me pediu para 
chamar miss Sullivan. Quando ela se aproximou, o lacaio que viajava na 
boleia empurrou-a para dentro do carro! Eu vi com meus prprios olhos!
- Que est tentando me dizer? - lorde Locke indagou.
- No entendo!
Bates insistiu com o empregado:
- Abra logo essa boca, rapaz; sua senhoria quer saber o que aconteceu.
- Foi assim - o lacaio explicou: - Eu disse a miss Sullivan que uma velha 
senhora queria falar com ela l fora, pois no se sentia bem para sair da 
carruagem. E miss Sullivan foi.
Lorde Locke e Bates o encaravam atnitos, e o empregado continuou, numa 
atitude defensiva:
- Eu dei a ela um agasalho, milorde, pois estava muito frio...
- Est bem! Est bem! Mas depois, o que houve?
- Conforme expliquei, miss Sullivan foi empurrada para
109
dentro da carruagem. A porta se fechou e a carruagem partiu! Mal podia
acreditar!
- Voc reconheceu algum?
- No, milorde.
Houve segundos de silncio. Aps, o lacaio arriscou:
- Tenho a impresso, milorde, de ter visto o sr. Jonathan Sullivan
atravs da janela do carro.
Lorde Locke virou-se para Bates:
- Mande um empregado  estrebaria para trazer aqui dois cavalos.
Imediatamente!
- Muito bem, milorde! Lorde Locke foi ao salo.
Como esperara, Perry l estava, aquecendo-se ao p da lareira. Tinha um
copo de champanhe na mo.
- Gytha foi raptada - ele anunciou.
- Raptada? Por quem?
- Pelos irmos Sullivan, claro! Imagino que a tenham levado a Sullivan
Hall e, se ns formos para l pela floresta, podemos chegar antes deles.
Perry colocou o copo sobre a mesa.
Sabia que as ordens de Valiant tinham de ser obedecidas sem discusso.
Foi assim quando estavam juntos no exrcito. As ordens eram sempre
obedecidas, sem demora.
- Podemos trocar de roupa? - Perry indagou.
- No h tempo!
Em seguida, lorde Locke ordenou a Bates:
- V buscar j nossos casacos de inverno e providencie que uma carruagem
fechada, com quatro cavalos, siga-nos at Sullivan Hall,
Enquanto Perry vestia o casaco e punha o chapu, lorde Locke saiu do
hall.
Foi  sala de armas e voltou com uma pistola de duelo em cada mo.
Deu uma a Perry.
- Est carregada - ele o preveniu. 
Sem comentrios, o amigo ps a arma no bolso. Os dois homens se
apressaram em montar os cavalos que os esperavam  porta.
110
E saram a galope.
Lorde Locke e Perry tomaram o caminho de Monk's Wood, a rota mais rpida. 
Observando-os, Bates exclamou:
- Nunca em minha vida presenciei coisa semelhante! Nunca!
111

CAPITULO VII

A noite caa rapidamente.
Os dois cavaleiros tiveram que diminuir a marcha na floresta.
Lorde Locke lembrou-se de que aquele era o local onde Vincent o alvejara.
Apenas por um triz havia escapado de ser morto. Jurava a si mesmo se 
vingar dos irmos Sullivan.
Depois, se preocupou com Gytha. Calculava como devia ter sido angustiante 
ser arrancada assim de um lugar seguro.
Parecia enxergar aqueles enormes olhos cheios de medo.
Ele jurou salv-la. Precisava fazer isso, e depressa!
" intolervel ver qualquer mulher ser tratada de maneira to brutal! "
Porm, ele no estava pensando em "qualquer" mulher, mas em Gytha!
Ela  to indefesa!
To sensvel! E se amedronta com tanta facilidade! Recordou-se de como 
tremia quando foi lhe pedir auxlio. Como estava sem jeito!
Teve dificuldade em dizer o que queria, e no o fitava diretamente nos 
olhos.
Essa timidez, lorde Locke pensou, nunca encontrara em mulher alguma de 
suas relaes. E era muito emocionante!
112
Gytha ficava linda de olhos semicerrados, com os clios tocando a face 
plida.
E quando ele a fazia corar, a pele dela se enrubescia num tom semelhante 
ao do cu, na aurora.
"Ela  linda! Se fosse levada a Londres e apresentada ao mundo social, 
brilharia como uma estrela! "
Mas, seria estrag-la!
Ele a preferia assim, como era.
Intacta, inconsciente de seu charme, gentil e meiga a um grau jamais 
visto.
E ao mesmo tempo, inteligente.
Perry percebera isso tudo antes, e viu-se obrigado a reconhecer.
- Ela  excepcional! - ele dissera.
Lorde Locke achava inconcebvel que criatura to fora do comum tivesse 
que passar por aquela experincia.
Quem haveria de supor que Gytha seria forada, por seus desprezveis 
primos, a aceitar um deles como marido?
E fora raptada de sua prpria casa, e levada para no se sabe onde!
- Eu vou mat-los por isso! - ele disse entre dentes.
E apressou a marcha do cavalo, obrigando Perry a fazer o mesmo.
Chegaram a Sullivan Hall para encontrar a casa envolvida em trevas.
No havia luz alguma filtrada pelas janelas.
Ambos pararam na porta da frente.
- Desconfio que viemos bem mais depressa que a carruagem deles, que 
seguiu pela estrada - lorde Locke observou. Mas devem chegar a qualquer 
momento.
Perry no respondeu.
Ele arrumava o casaco, achando incmodo cavalgar em traje de noite.
Perry e lorde Locke usavam um tipo de calas muito em moda, criado pelo 
prncipe regente.
Em ocasies menos formais, como seria a daquela noite, essa roupa
substitua as calas at os joelhos, obrigatrias para noites de gala.
113
- A casa parece lgubre - Perry disse, afinal.
-  que sir Robert ainda no foi enterrado - lorde Locke respondeu.
Dito isso, virou a cabea e viu,  distncia, o cemitrio local ao lado 
da igreja, onde o av de Gytha seria sepultado muito em breve.
Perry olhou para a mesma direo e exclamou:
- Aquilo  uma igreja? Se for, est havendo uma cerimnia religiosa l 
neste momento.
Os dois homens divisaram luzes atravs dos galhos das rvores.
- Por Deus!  para l que levaram Gytha! - lorde Locke gritou.
Gytha viajara por algum tempo na carruagem sem dizer uma palavra.
Depois, com voz suplicante, insistiu mais uma vez:
- Por favor... primo Vincent... oua-me. Estou pronta a lhe dar at o 
ltimo tosto que possuo, se no tiver... que me casar... com voc.
- No quero mais discutir esse assunto - Vincent respondeu spero. - Voc 
vai se casar comigo e no vou perder tempo com ameaas, pois sabe o que 
farei se criar problemas.
- Depois, acrescentou com um riso zombeteiro: - Principalmente 
considerando-se tambm que seu precioso lorde Locke no me escapar numa 
segunda vez!
- Talvez a querida Gytha prefira se casar comigo! - Jonathan arriscou.
- Cale essa boca! - Vincent berrou. - No vou mudar meus planos, e j 
prometi cuidar de voc quando tiver o dinheiro de Gytha em minhas mos.
- S espero que cumpra com a palavra - Jonathan gemeu.
- Considero um insulto voc duvidar de mim!
Ao ouvir os dois irmos discutindo, Gytha teve vontade de gritar.
Era o que a aguardava pelo resto da vida!
Inevitavelmente o pomo da discrdia entre eles seria sempre dinheiro.
114
Gytha se horrorizou s em pensar nisso!
E rezava para que lorde Locke viesse em seu encontro, porm tinha pouca 
esperana de que ele chegasse a tempo para salv-la.
Uma vez casada com Vincent, no haveria mais escapatria.
Ela se tornaria sua esposa para sempre.
Ningum poderia afast-la do primo.
Pensando em lorde Locke, ela repetia mentalmente:
"Eu amo voc! Eu amo voc! Salve-me! Oh, por favor... Salve-me! "
Os cavalos pararam e Gytha viu o porto da igreja. Sua ltima esperana 
se desvanecia por completo.
O lacaio desceu da boleia para abrir a porta da carruagem.
Jonathan saiu antes e Vincent o seguiu.
Andaram at a porta da igreja, um de cada lado de Gytha, que se sentia 
como uma prisioneira levada ao local da execuo.
Ao passar pelo tmulo da me, ela fez um ltimo apelo:
"Ajude-me, mame, ajude-me! Se tiver que me casar com Vincent... prefiro
morrer, pois no posso tolerar viver com ele! "
Foi um grito de desespero!
Parecia se afogar. As guas se fechavam aos poucos sobre ela.
Os trs entraram na capela. As velas do altar estavam acesas.
O velho pastor, que conhecia Gytha desde criana e que por sinal a 
batizara, os esperava.
Ela teve ainda um fio de esperana.
O reverendo era quase completamente surdo. Contudo, se conseguisse explicar-
lhe a situao, talvez houvesse ainda uma chance de escapar daquele
casamento.
Mas Vincent desconfiou do que se passava na cabea de Gytha e disse 
baixinho:
- Se voc fizer uma cena ou tentar persuadir esse velho bobo a no nos 
casar, eu atiro nele e em voc. Por isso, fique com a boca fechada, a 
menos que queira ser a causa da morte desse homem.
Gytha no deu resposta, apenas fechou os olhos.
No podia entender como uma criatura que tinha o mesmo nome de seu pai 
podia ser to desprezvel.
115
Vincent deu o brao a ela e comeou a andar devagar pela nave da igreja, 
num passo que ele julgava ser de grande dignidade.
Jonathan ia atrs.
Chegaram ao altar e pararam em frente do pastor.
Ele era quase cego e examinava Gytha por detrs de seus culos.
A, ela sorriu e o reverendo a reconheceu.
- Deus abenoe voc, minha filha - ele disse. - Quer se casar com seu 
primo Vincent, no ?
Gytha se preparava para dizer que essa era a ltima coisa no mundo que 
desejava fazer, quando Vincent respondeu com bastante grosseria:
- Temos uma licena especial. Comece a cerimnia j! Ele falou de maneira 
imperdovel, at se dirigindo a um
empregado.
Em se tratando de um ministro de Deus, era grande insulto.
O pastor lanou um olhar desaprovador a Vincent e Gytha teve esperana de
que ele se recusasse a celebrar o casamento. Mas, devagar, abriu o livro
de oraes e comeou a falar:
- Caros paroquianos. Estamos aqui reunidos...
- Corte esse palavreado todo - Vincent ordenou. - Limite-se a nos casar.
- Tenho celebrado cerimnias de casamento desse modo por anos, sr. 
Sullivan - o pastor respondeu com calma - e no vou modificar o que est 
escrito no livro de oraes.
- Muito bem - Vincent concordou, mas de mau humor. Estamos com pressa.
Deliberadamente devagar, pois ficara chocado com o comportamento de 
Vincent, o reverendo comeou de novo:
- Caros paroquianos. Estamos...
Nesse instante, ouviram-se passos fora da igreja. O corao de Gytha 
pulou.
Ela percebeu algum abrir a porta e adivinhou, num segundo, quem chegava.
Quando lorde Locke e Perry viram luzes na igreja, esporearam os cavalos e 
seguiram a galope ao longo da estrada.
116
Atingiram em poucos minutos o porto da capela e depararam com uma 
carruagem ali estacionada.
O cocheiro estava na boleia e havia um lacaio ao lado dos cavalos.
Lorde Locke pulou da sela.
Em tom autoritrio, disse ao empregado:
- Segure nossos cavalos!
Ele e Perry atravessaram correndo o estreito atalho, e abriram a porta da 
igreja.
- Pare com essa cerimnia! - lorde Locke gritou. A voz dele fez eco por
todo o edifcio.
Gytha o viu entrando e percebeu que Vincent tirava a arma do bolso.
 - Cuidado! Cuidado! - ela gritou. - Ele vai atirar em voc!
E se ps na frente de Vincent.
Tentava for-lo a apontar a pistola para o ar, em vez de na direo de 
lorde Locke.
Vincent a empurrou com brutalidade.
Ao fazer isso, inadvertidamente, puxou o gatilho.
com uma exploso violenta, a bala atingiu um dos pilares da igreja. Isso 
deu a lorde Locke tempo de alcanar Vincent, dando-lhe um soco no queixo 
que o jogou ao cho de mrmore.
Vincent caiu inconsciente, e Jonathan deu um grito de horror.
Lorde Locke virou-se e fez o mesmo com ele.
Jonathan tombou de costas no cho, batendo a cabea fortemente contra um 
banco de madeira.
Gytha cambaleara um pouco devido ao empurro dado por Vincent, mas 
conservou o equilbrio.
com olhos brilhantes, ela se jogou nos braos de lorde Locke, chorando:
- Voc veio! Voc veio! Rezei para voc me salvar... mas pensei que 
chegasse... tarde demais!
O velho pastor indagava trmulo:
- O que est acontecendo? Isso  errado, muito errado, na casa de Deus!
- Desculpe, reverendo - Gytha gaguejou - mas eu estava sendo forada... a 
me casar. Lorde Locke... me salvou.
117
- Casar forada? - o religioso repetiu. - Por que no me disse, minha 
filha? Achei o casamento um tanto apressado, com o que alis no 
concordo, mas pensei ser de sua vontade.
- Tudo ser explicado ao senhor amanh, reverendo lorde Locke declarou. -
Por ora, tenho de levar Gytha daqui. E sugiro que o senhor volte  sua 
casa e deixe os irmos Sullivan onde esto, at que recobrem os sentidos. 
Eles se portaram indignamente, e merecem um castigo.
O pastor olhou em volta, desnorteado.
Lorde Locke viu a licena especial para o casamento em cima de um consolo 
prximo ao altar.
Inclinou-se sobre a mesa e pegou-a.
Pde observar, ento, Vincent esparramado numa posio nada elegante, do 
outro lado do gradil, e ainda inconsciente.
Esboou um sorriso e ps o brao em volta de Gytha, ajudando-a a sair da 
igreja; percebeu que ela tremia.
Perry, depois de dizer algumas palavras de desculpas ao reverendo, 
acompanhou-os.
J era noite. O cu estava negro e as estrelas surgiam, uma a uma.
Quando chegaram ao porto da igreja, viram uma carruagem que se 
aproximava, conduzida por quatro cavalos. Era a encomendada por lorde 
Locke.
A carruagem parou e um lacaio desceu da boleia.
- Monte Hrcules, James - lorde Locke disse a ele. - O major Westington 
vai mostrar o caminho para voc.
- Muito bem, milorde.
Os dois cavalos, o de lorde Locke e o de Perry, permaneciam ainda sob 
cuidados do cavalario de Vincent, o qual os encarava boquiaberto, sem 
entender nada do que se passava.
Perry abriu a porta da carruagem e lorde Locke ajudou Gytha a subir, 
ficando, porm, do lado de fora.
Deu a Perry algumas instrues em voz baixa. Gytha no ouviu o que ele 
falava e nem teve curiosidade de tomar conhecimento do assunto.
Ela s pensava agora que, como um anjo protetor, lorde Locke surgira para 
salv-la.
118
Cair do cu no ltimo instante, quando ela j havia concludo estar 
totalmente perdida.
Nesse momento, escutou a voz de Perry.
- Vou fazer tudo o que me pediu, Valiant, mas antes deixe-me dizer-lhe 
que nunca o vi em melhor forma. O professor Jackson teria orgulho de 
voc.
- Eu tambm estou orgulhoso de mim - lorde Locke acrescentou com um 
sorriso. E entrou na carruagem.
Os cavalos se puseram em movimento. Lorde Locke colocou o brao em volta 
dos ombros de Gytha e puxou-a para perto de si.
- Acabou tudo - ele disse com carinho -, mas isso nunca mais pode 
acontecer.
Nessa hora, s nessa hora, Gytha rompeu em pranto copioso.
com a cabea de encontro ao peito de lorde Locke, ela desabafou, e 
agradeceu a Deus por suas preces terem sido atendidas.
- Voc... me salvou. Preferia... morrer... a casar com... Vincent!
- Mas est tudo acabado agora - lorde Locke repetiu. Aconchegou-a mais e 
notou que Gytha tinha o corpo muito
frio.
- Voc est gelada! - exclamou.
Depois, tirou seu casaco e colocou-o nas costas de Gytha que indagou:
- Como pde ser assim maravilhoso... vindo to depressa? Julguei que no 
entenderia o que acontecera e que de qualquer maneira... jamais chegasse 
a tempo.
- No pense mais nisso, Gytha. com lbios trmulos, ela observou:
- Vincent disse que se eu no me casasse com ele, o mataria
- E voc se aborreceu por causa disso? - lorde Locke indagou.
- Me... aborreci? Como pode fazer semelhante pergunta? Como poderia 
deixar voc morrer... ou ser... ferido?
Havia agonia na voz de Gytha, que revelava com clareza o temor de que tal 
coisa pudesse ainda se passar.
119
- Ento, se voc se sente assim, tenho uma soluo muito fcil a 
oferecer.
- Uma... soluo?
As lgrimas que haviam cessado, comearam a correr novamente em suas 
faces.
Lorde Locke tirou um leno do bolso e enxugou-as.
- Sim, uma soluo - ele repetiu - mas tenho medo de sugerir. Voc pode 
no gostar.
- Eu... no... entendo.
Ele fez uma pausa e aps, fitando-a bem nos olhos, confessou:
- Acho, Gytha, que se estava na verdade preocupada de que seu primo me
matasse ou mutilasse, voc deve gostar um pouquinho de mim.
-  claro que gosto de voc! Foi to maravilhoso, to valente! S voc 
seria capaz... de me salvar.
- E gosta de mim apenas por isso, ou h outra razo? Ele tinha os olhos 
nos de Gytha e nada poderia ser mais
revelador que a expresso do olhar dela.
Mulher alguma jamais o fitara com tanta adorao.
- Diga-me o que sente, Gytha!
Ela sabia o que lorde Locke estava pensando.
De olhos semicerrados, os clios escuros tocavam-lhe o rosto.
com um quase gemido, escondeu a face no ombro de lorde Locke que, por sua 
vez, pousou os lbios na testa de Gytha, dizendo:
- Acho, amor, que voc me ama um pouco. Ela estremeceu quando sussurrou:
-  claro... que amo... voc! Como posso deixar de amar homem to 
encantador? Porm no queria... que soubesse!
- No  possvel no saber, se eu tambm te amo! Gytha levantou a cabea 
e encarou-o incrdula.
- Voc... me ama?
- Eu adoro voc! - ele respondeu com firmeza. - E te amo h muito tempo, 
sem me dar conta disso. Mas, quando aqueles demnios a raptaram, percebi 
que perdia algo to perfeito, to precioso, que minha vida nunca seria a 
mesma se no a recuperasse.
- Como consegue dizer coisas... assim lindas? Como pode... pensar nessas 
coisas?
120
- Posso pensar nelas e as pr em palavras porque te adoro, Gytha. E
gostaria de ficar horas falando sobre esse amor.
Ele sorriu, antes de continuar:
- Por esse motivo, querida, para fazer tudo mais fcil e para ficarmos 
absolutamente seguros de que nunca mais ser roubada de mim, vamos nos 
casar esta noite mesmo.
Gytha o fitava perplexa, no podendo crer no que ouvia.
- S preciso trocar o nome do noivo, na licena especial que seu primo
Vincent obteve. - E depois, sorrindo, ele acrescentou: - O arcebispo de
Canterbury, quando jovem, foi capelo de meu pai em Locke Hall. Ele vai
entender a razo desse ato.
- Quer dizer que voc vai se casar comigo? - Gytha perguntou.
- Vou me casar com voc, e no haver mais dramas com seus primos e nem 
presentes de casamento com segundas intenes.
- Por que est to certo disso?
A voz de Gytha tremia. Estava outra vez com medo. Lorde Locke abraou-a 
mais forte e explicou:
- A primeira providncia a se tomar amanh de manh, antes de partirmos 
para a nossa lua-de-mel, ...
- Lua-de-mel? - Gytha murmurou.
- antes de partirmos para a nossa lua-de-mel - lorde Locke repetiu -,  
chamar meus procuradores. Voc e eu assinaremos um documento que 
garantir a cada um de seus primos cinco mil libras anuais e uma casa em 
Londres, durante nossas vidas. Se qualquer um de ns dois morrer, o 
benefcio cessa e a casa volta para a propriedade de minha famlia.
Gytha deu um grito de alegria.
- Que ideia brilhante! Superinteligente!
- Isso garante que os irmos Sullivan ficaro interessados em nos 
conservar vivos, em vez de nos matarem. E, quanto ao outro inimigo - 
lorde Locke prosseguiu -, se minha esposa morrer, terei de guardar luto 
por um ano, e um ano  tempo longo demais na vida de uma jovem mulher.
Gytha entendeu exatamente o que ele queria dizer, e repetiu:
121
- Como voc ... esperto! Maravilhoso mesmo! Agora sim, posso ser 
feliz... e viver sem medo!
- No permito que voc tenha mais medo; vou lhe mostrar como ser feliz.
E ps os dedos sob o queixo de Gytha forando-a a olhar para ele.
Ento, muito devagar, saboreando de antemo o que estava por vir, os 
lbios de lorde Locke se apossaram dos dela.
Para Gytha, foi como se o cu se abrisse para receb-la e ela fosse 
conduzida para l atravs das estrelas!
Lorde Locke a beijou, de incio gentilmente e com muita ternura, depois 
de maneira mais possessiva.
Era o amor que ela sempre desejara descobrir.
Parecia inacreditvel que o heri de seus sonhos a beijava agora.
Ela lhe pertencia, era completamente dele, como sempre quisera ser.
- Eu... amo voc! Eu... amo voc! - Gytha murmurava sem parar.
Abraando-a com mais fora, lorde Locke perguntou:
- Como pode me provocar essas emoes?
- Que emoes?
- Diferentes das que senti at ento. Voc me excita, querida, mas h 
qualquer coisa alm disso. Voc tem tudo o que desejei encontrar numa 
mulher e, muito particularmente, em minha esposa.
E a beijou mais uma vez.
Estavam to entretidos que foi quase um choque perceberem que a carruagem 
parara. Haviam chegado a Locke Hall. Perry os esperava. Quando entraram 
no hall, ele indagou malicioso:
- Como puderam demorar tanto? J executei todas as suas ordens, e voc 
deve me agradecer, Valiant, por eu ter chegado aqui to depressa.
- E lhe sou muito grato, Perry. Mas, como estamos todos com fome, quanto 
mais depressa jantarmos, melhor.
Ele tirou o casaco dos ombros de Gytha, dizendo:
- Se voc quer se arrumar um pouco, v depressa, pois temos muito a 
celebrar.
122
Gytha sorriu extasiada e correu para cima, onde a sra. Meadows a 
esperava.
- Que aconteceu, miss? - a governanta indagou, curiosa.
- Ns nos preocupamos desde o instante em que saiu daqui.
- Sua senhoria me salvou - Gytha respondeu -, e agora tudo vai s mil 
maravilhas. Estou muito... muito contente mesmo.
Gytha, com o auxlio da sra. Meadows, aprontou-se rapidamente, pois 
estava ansiosa por ficar junto de lorde Locke. Lamentava o tempo levado 
para se trocar, porque no queria permanecer longe dele nem por poucos 
minutos.
O jantar foi delicioso, embora Gytha no pudesse se lembrar mais tarde o 
que tinham comido ou bebido.
Embevecida, fitava lorde Locke o tempo todo durante a refeio.
Era-lhe difcil crer que ia se casar com ele. Parecia um sonho.
Perry falava continuamente, fazendo-os rir.
Mas Gytha quase que s conseguia pensar nos beijos que acabara de 
receber,
O amor crescia dentro dela, transbordante, atingindo lorde Locke como 
raios de um sol ardente.
"Homem algum pode ser mais atraente!", ela refletia. "Nem mais viril! "
Corou ao pensar nisso.
Gytha estava to linda ao se saber amada, que lorde Locke no podia 
afastar os olhos dela.
Quando terminaram de comer, ele disse com muito carinho:
- V se aprontar, querida. Devemos ir logo mais a igreja de Locke Hall. 
Meu capelo nos aguarda.
- Tem certeza mesmo... de que esse ... seu desejo?
- Absoluta, E mato qualquer um que se ponha em meu caminho!
Ela no tinha palavras para responder. O amor a invadia por completo.
Pela expresso do olhar dela, lorde Locke pde perceber como Gytha se 
sentia.
Ela correu para o quarto, ao encontro da sra. Meadows.
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Sobre a cama estava um vu, pertencente  famlia Locke por sculos.
Da mais fina renda, parecia ter sido feito por mos de fada.
A governanta colocou-o na cabea de Gytha, e a mantilha caiu dos ombros 
at o cho, ondulando-se depois, como uma pequena cauda.
Havia tambm uma tiara de diamantes que fora usada pela bisav de lorde 
Locke.
Cada pedra se assemelhava a uma estrela, e Gytha a comparou a um presente 
cado do cu.
Esperando por ela estava um buque de orqudeas.
Depois de pronta, a sra. Meadows e mais duas empregadas a admiraram, 
elogiando sua beleza. E lhe desejaram boa sorte.
Gytha desceu ao encontro de lorde Locke, e teve dificuldade em andar
devagar, tal a ansiedade de que se achava possuda. Tinha vontade de
correr.
Ele tambm estava muitssimo elegante, com calas at os joelhos e meias 
de seda.
Usava muitas condecoraes e casaca.
A cruz de honra que ele adquirira por atos de bravura durante a guerra, 
pendia de uma fita em volta do pescoo.
Lorde Locke tomou-lhe a mo e, quando viu que os-dedos de Gytha tremiam, 
ele falou bem baixo:
- Voc  exatamente o que sempre quis. Depois de casados, vou lhe mostrar
como te amo.
Devido  emoo, Gytha no conseguia falar.
Os dois entraram de mos dadas na velha capela, situada atrs da casa.
Fora a primeira coisa a ser construda em Locke Hall.
O rgo tocava uma msica solene.
Flores em quantidade ornamentavam a pequena igreja. Havia flores na mesa 
de comunho e nos vitrais.
Gytha soube, mais tarde, que as estufas tinham sido esvaziadas.
Todos os vasos de flores da casa foram tambm colocados na capela.
O ar estava perfumado.
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Em vez dos tradicionais lrios e cravos brancos, havia uma profuso de 
cores.
Dlias, crisntemos, orqudeas e muitas outras flores preciosas, nos tons 
mais variados, enfeitavam o local.
Perry, como no podia deixar de ser, foi o padrinho de lorde Locke.
O capelo, homem grisalho de meia-idade, iniciou a cerimnia.
Gytha lembrou-se ento de que, h apenas poucas horas, ouvira as mesmas 
palavras.
Soaram a ela, naquela ocasio, como um golpe de morte  sua felicidade e, 
qui,  sua vida.
Mas agora se casava com o homem que amava e que retribua esse amor.
Deus os abenoaria. Ela teve certeza de que os pais estavam ao lado dela. 
Compartilhavam de sua aventura.
Lorde Locke pronunciou os votos matrimoniais com voz segura e sincera. 
Fez lgrimas brotarem dos olhos de Gytha.
Ela o admirara de longe por anos, quando ele cavalgava ou ia s caadas!
Sabia agora que, a par daquela admirao pela beleza fsica dele, havia 
qualquer coisa espiritual atrs de tudo, que ela tambm apreciava, e
muito.
"Ele  diferente dos outros homens", Gytha pensava, agradecendo a Deus
por t-lo encontrado.
Quando a cerimnia terminou, lorde Locke a conduziu para fora da igreja.
Ela sups que iriam receber os cumprimentos da criadagem, e tomar uma 
taa de champanhe com Perry e o capelo.
Para sua surpresa, no havia empregados no hall, e lorde Locke a levou ao 
quarto.
Duas velas acesas davam ao ambiente Uma atmosfera acolhedora.
Gytha encarou-o atnita, e lorde Locke disse:
- Quero voc s para mim. J convivemos bastante com amigos. Agora, meu 
amor, estamos enfim ss.
Gytha desejava que ele a beijasse.
Mas antes, lorde Locke tirou-lhe a tiara de diamantes e o vu, jogando-os 
em cima da cama.
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Depois tomou-a nos braos e beijou-a longamente.
Esses beijos eram diferentes dos anteriores. Havia algo de sagrado e 
respeitoso neles, como se a cerimnia religiosa ainda perdurasse na mente 
dos dois.
Temendo assust-la, com muita gentileza, lorde Locke desabotoou-lhe o 
vestido que escorregou at o cho.
Gytha tremia, mas no de medo. Uma excitao aumentava dentro dela, como 
o calor do sol, chegando at os seios e a garganta, e finalmente aos 
lbios que ainda estavam unidos aos de lorde Locke.
Ele a ps na cama.
O xtase que se apossou de Gytha crescia a cada instante, alcanando uma 
intensidade indescritvel.
Alguns segundos depois, lorde Locke deitou-se ao lado dela, envolveu-a 
com o brao e declarou:
- Agora, meu tesouro, vou lhe provar como te amo, como te adoro!
- Pareo estar... sonhando! - Gytha murmurou. - Eu o amei por tantos anos 
mas nunca pensei que pudssemos estar juntos... algum dia. E... mais 
ainda... que voc me amasse.
- Adoro voc, que representa tudo o que imaginei para uma esposa, e que 
julguei jamais encontrar.
Os lbios dele tocavam-lhe a maciez da pele, quando acrescentou:
- Mas ao mesmo tempo, meu tesouro, se quiser que eu espere para faz-la 
total e absolutamente minha, posso aguardar, embora seja difcil para 
mim.
Sorrindo e escondendo o rosto no ombro dele, Gytha perguntou:
- Como pode supor... que deseje esperar... por seu amor? J esperei muito 
e, h poucas horas, quando conclu que havia perdido voc para sempre, o 
mundo ficou escuro e vazio para mim. Preferia morrer... a no v-lo nunca 
mais.
- Isso  o que desejava ouvir. Quero seu amor desesperadamente, querida!
E afagando os cabelos de Gytha, continuou:
- Meu tesouro, vou lhe dar uma compensao no s por
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toda sua agonia desta ltima semana, como tambm pelos anos de sofrimento 
com seu av e pela perda de seus pais.
- Como pode pensar em coisas to bonitas para me dizer?
- Senti desde o primeiro instante que voc apareceu em minha vida, que 
precisava proteg-la e pagar a dvida que tenho com seu pai. Mas depois, 
por ser voc to frgil e tambm valente, me apaixonei. - Gytha ia dizer 
qualquer coisa, quando ele prosseguiu: -  verdade! No conheo mulher 
alguma que teria se portado como voc naquelas circunstncias terrveis.
- Meu amor, meu adorado!
Os lbios dele roaram as faces de Gytha ao acrescentar:
- Voc  linda, mas admiro acima de tudo seu carter, alm de me 
deslumbrar com sua personalidade. Como podem tantas qualidades se 
reunirem em pessoa assim pequena?
- Quero ser tudo o que voc deseja que eu seja. Por isso, por favor... me 
ensine a... am-lo. Desejo lhe dar felicidade, e espero no fazer nada 
que o aborrea ou que o deixe zangado.
- No se preocupe, amor. Jurei no apenas proteg-la, mas am-la e 
respeit-la at que a morte nos separe.
Depois beijou-a de maneira mais insistente, como se lhe pedisse algo. Mas 
ela no sabia bem o qu, apesar de querer se entregar totalmente a ele.
Por instinto, achegou-se mais e mais a lorde Locke, a ponto de sentir o 
corao dele batendo contra o seu.
Percebeu que o excitava, pois havia fogo nos lbios do marido.
Chamas a envolviam tambm, fazendo-a quase pensar que o calor dos raios 
do sol se transferiam para seu corpo, e em seguida para os lbios.
- Eu... amo... voc! - ela sussurrava.
Lorde Locke beijava os olhos, o pescoo, e os seios de Gytha. Um xtase 
jamais julgado possvel a invadia. Era maravilhoso! S podia vir de Deus!
- Eu amo voc... com toda a fora... de meu ser.
- E eu venero voc, Gytha, minha preciosa e perfeita esposa. Mas a quero 
tambm como mulher. Oh, Deus, como a quero!
Lorde Locke a fez sua.
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E eles se transformaram numa s pessoa. Foi o amor com o qual Gytha
sonhara!
Porm... muito superior, muito mais miraculoso!
Era a glria e a bno de Deus!
O Deus que os salvara do mal e os protegera.
O mesmo Deus que os presenteara com o verdadeiro amor, bom e puro!
O amor que pertencia a eles agora - por toda a eternidade!
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                            *****

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das
reconstituices de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.


Fim
